sábado, 28 de junho de 2014

Queridas amigas e queridos amigos,

Divulgo imagens da família de minha enteada querida, Andréa, durante jogo em Recife (EUA x Alemanha). Na primeira foto, Brian e Aidan (esposo e filho) curtindo poça d'água no entorno da Arena Pernambuco. A segunda foto refere-se a publicação do Diário de Pernambuco. A terceira foto é da família, mais o meu "neto" Yuri, sobrinho de Andréa e filho de Cléa Paula.



terça-feira, 10 de junho de 2014

Minha Cidade

                             Jandira Oliveira Paixão

Minha cidade tem baiana,
Acarajé, abará.
Tem muita mulher bonita
Pouco homem prá casar.
Tem um pôr-do-sol belíssimo
Prá do Elevador admirar.
No Terreiro de Jesus,
Palmeiras vemos por lá.
Só não ouvimos o canto
De sanhaço ou sabiá.
Crianças abandonadas,
Alcoólatras a vaguear,
Uso de crack nos becos
Nesta terra também há!
Moro e gosto da cidade
Mas nasci em Irará.
Quando ficar bem velhinha
É prá lá que vou voltar,
Curtir uma vida mais mansa,
Com os amigos de lá.
Comer mangaba, caju,
Em vez de goiaba, araçá.
E mesmo que sinta saudades,
É por lá que vou ficar,
Até a morte chegar!


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Deixando a falsa modéstia de lado, publico carta que recebi da minha irmã Jandira. Ela a divulgou em seu grupo de estudos.

"Querido irmão,

            Agora, quando o início da ditadura militar, em nosso país, completa 50 anos, recordo-me de fatos da época.

            A nossa pequena cidade fervilhava. Eram tantos os esquerdistas, os comunistas, que o exército se fez presente. Autoridades demitidas, outros fogem para o campo, pessoas detidas para interrogatórios.  Lembras do escudo do nosso colégio? As armas de São Judas Tadeu: foice e machado. A professora Lourdes teve que dar explicações. Papai que era suplente de delegado ocupa o cargo, para desespero de mamãe, que já vivia preocupada contigo. Tu partes, deixando tua família, três filhos, mais um para chegar. E chega lindo, recebendo um nome russo: Wladimir. Não lembro quanto tempo demoraste fora do país, mas imagino que a saudade devia ser grande e dificuldades certamente existiram. Porém guerreiro como sempre fostes, soubeste aproveitar este tempo para crescer e estudar. Até chegaste a poliglota!

            Cinqüenta anos depois, a tua, a nossa realidade modificou-se. Já criamos filhos, exercemos atividades profissionais. Tu escreveste um livro e, hoje, somos do time dos aposentados. Mas, certamente, ainda atuantes na vida.

            Que continues a sonhar, a protestar, a escrever, a ser quem tu és: um forte!

Abraços de tua mana Jandira

Salvador, maio, 2014".

            

sexta-feira, 28 de março de 2014

A Bahia, O Golpe de 64 e a Ditadura
Pedro Soares - Jornalista

A Bahia suportou de maneira dolorosa as conseqüências do golpe militar de abril de 1964, semelhante ao que ocorreu na maioria dos demais estados brasileiros. Este início de ditadura foi conseqüência de uma realidade formada pelas diferenças e distúrbios comuns a uma sociedade com base fundamentalmente tradicional em uma fase importante de seu esforço em modernizar-se. A ocorrência do fenômeno no plano nacional e sua repercussão no estado da Bahia indicaram uma solução aos conflitos surgidos no interior de uma configuração social confrontada com diversas opções, como um desenvolvimento econômico autônomo, socialmente justo e politicamente democrático ou um desenvolvimento dependente, socialmente desvinculado e politicamente autoritário. Estes conflitos atravessavam a realidade política e social baiana às vésperas do Golpe de 31 de março e faziam parte da realidade política do então governador Lomanto Júnior.
Antônio Lomanto Júnior elegeu-se governador da Bahia em 1962, pela coalizão do PTB com a UDN, derrotando o candidato do PSD, Waldir Pires. Substituiu o então governador Juracy Montenegro Magalhães, representante austero do conservadorismo da política baiana de então e um dos líderes nacionais da UDN, partido que fazia declarada oposição ao presidente João Goulart. O conflito político tinha em Lomanto seu início, já que ele fora apoiado pelo PTB, partido de João Goulart. Já o derrotado PSD apresentava uma plataforma moderada, sugerindo apoio às medidas ditas progressistas do presidente. Assim, percebia-se que o confrontamento destas duas correntes partidárias sugeria a possibilidade de problemas no relacionamento com o governo federal por parte do novo governador da Bahia.
A certeza é que o mais poderoso partido político baiano de então se encontrava, na verdade, dividido em três linhas principais: uma linha liberal, apoiada socialmente no pequeno e médio empresariado baiano e nas camadas intermediária da população personificada nas figuras do próprio Lomanto Júnior e dos seguidores do falecido ex-governador Otávio Mangabeira; a linha conservadora, liderada por Luiz Viana Filho e seus apoiadores, tradicionalmente anti-reformas e anti-Goulart, com o reforço do grupo político de Juracy Magalhães. Fortalecia o conservadorismo o iniciante grupo de Antônio Carlos Magalhães, então presidente do diretório estadual da UDN. Todos eles reuniam os valores comuns do anticomunismo e do antigetulismo.
Em 31 de março de 1964, a sociedade baiana foi surpreendida pelo golpe civil-militar. Esta surpresa ficou marcada no apego de setores expressivos da grande imprensa baiana à legalidade institucional, expresso no posicionamento assumido pelo jornal A TARDE. Afora isso, Jango não teve, na Bahia, quem o defendesse, apesar das tentativas dos universitários, liderados por Sérgio Gaudenzi, que se deslocaram para Feira de Santana, na esperança de organizar juntamente com o prefeito daquela cidade, Francisco Pinto, um esquema de resistência. O prefeito de Feira, no entanto, pouco podia fazer, visto que já se encontrava na mira das forças leais ao Golpe.
O prefeito de Vitória da Conquista, José Fernandes Pedral Sampaio, um dos aliados do projeto de Goulart, também seria imediatamente aprisionado pelos autores do golpe.
O governador Lomanto Júnior marcou uma reunião com sindicalistas na sede do Jornal da Bahia, imaginando que iria conseguir organizar um movimento a favor do mandato do presidente Goulart, mas acabou conformando-se à nova situação. Como castigo por esta decisão, foi afastado, pelo comando militar, do controle sobre a Polícia Militar baiana e recebeu a visita, no Palácio da Aclamação, do general de Brigada Manoel Mendes Pereira, que certamente o colocou diante de duas alternativas: o apoio ao golpe ou sua destituição. No dia 2 de abril de 1964, comunicou ao povo baiano, pela televisão, seu apoio ao que agora chamou de “Revolução”. Já o prefeito de Salvador, Virgildásio Sena, filiado à UDN, manifestou-se em favor das reformas de base. Foi destituído do cargo e tornou-se prisioneiro na sede da 6a Região Militar, vindo a ter seus direitos políticos cassados.
Instalou-se, com o apoio do SINDIPETRO, uma greve geral na Bahia, da qual apenas participaram sete sindicatos. O fracasso da greve e de qualquer movimento de resistência ao Golpe no estado da Bahia estava óbvio.
As massas não eram covardes nem traidoras. Eram incapazes de enfrentar o número crescente de adversários de Jango, instigados por diversas organizações, inclusive a Igreja Católica. Já em 1963, a procissão de Corpus Christi teve como palavra de ordem a necessidade de enfrentar o ”comunismo ateu e seus aliados janguistas”. Também em 1963 a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) distribuiu panfletos nas residências soteropolitanas conclamando as famílias a enfrentarem “o inimigo comunista que é a negação da liberdade, da justiça e da paz”.
Uma semana após o golpe, o cardeal dom Álvaro Augusto da Silva oficiava um Te Deum e liderava uma “Marcha da Família com Deus pela Democracia”, do terreiro de Jesus até o Campo Grande, como agradecimento a Deus e aos comandantes militares pela salvação do país da “ameaça comunista”.
Começaram as agressões aos políticos favoráveis às Reformas de Base. Atendendo à solicitação encaminhada pelo comando da VI Região Militar à Mesa Diretora da Assembléia Legislativa baiana, esta, em sessão de 28 de abril de 1964, declarou extintos os mandatos de seis deputados estaduais e um suplente, democraticamente eleitos, entre os quais Sebastião Nery, mais tarde conhecido comentarista político, e o dirigente comunista Aristeu Nogueira.
Nesse status, chegara a hora do enfrentamento entre os grupos conservadores e as tendências progressistas, entre as correntes da renovação e as forças do atraso, entre os homens do capital e o mundo do trabalho. O golpe que visava erradicar o movimento em prol da democratização da sociedade brasileira foi dirigido, fundamentalmente, contra a classe operária. Fora durante os anos 1960-1964 que os petroleiros da Refinaria Landulfo Alves de Mataripe (RLAM) haviam conseguido alcançar melhorias das condições de trabalho, elevação de salários e participação nos processos de gestão da empresa. Tendo se celebrizado então pela capacidade de organização e mobilização de seus funcionários e atividade eficaz de seu sindicato (o SINDIPETRO), a refinaria atrairia a atenção raivosa dos protagonistas da ruptura institucional, bem como de seus cúmplices de última hora.
Após a vitória do golpe civil-militar, uma verdadeira guerra foi desfechada contra os dirigentes sindicais, bem como contra lideranças operárias ou mesmo trabalhadores, todos acusados de serem “agitadores comunistas”. Vários dirigentes sindicais foram destituídos, presos e tiveram seus direitos políticos cassados. Outros membros das entidades sindicais foram espancados. Os militares responsáveis pelas “ações” chamavam aquilo de “Noite de São Bartolomeu”.
O Conselho Universitário da Universidade Federal da Bahia (então Universidade da Bahia), em sua primeira sessão após o golpe militar, realizada em 09/04/1964, aprovava uma moção marcantemente lapidar e emblemática - Satisfeito com o sucesso da conjuração contra as instituições democráticas, o então reitor da Universidade, prof. Albérico Fraga fez questão de registrar, na ata da reunião do Conselho Universitário do dia nove de abril de 64, o tamanho da sua satisfação pessoal, bem como sua disposição em contribuir para o êxito do espírito do golpe no seio da universidade. Assim, ao anunciar as demissões de dois professores estigmatizados como subversivos, afirmava orgulhosamente: “Pratiquei, e o fiz com a abundância do coração, o primeiro ato arbitrário como Reitor da universidade, que foi a demissão pura e simples do famoso comunista Isidório Batista de Oliveira...”. Achando pouco o dito, o Magnífico Reitor foi ainda mais longe em sua impostação autoritária, acrescentando ao escárnio para com a democracia universitária todo o peso de seus juízos racistas: “O professor Nelson Pires, comunista, agitador contumaz, serviu-se desse negro analfabeto, que não sabe assinar o nome direito (...). Esse preto está preso. Fiz sua demissão pura e simples. (...) Faço questão que fique registrado em Ata que pratiquei de coração alegre porque se trata de um negro moleque ousado e que merece ser castigado.”
Ainda no dia 1o de abril de 1964, uma assembléia estudantil na Faculdade de Medicina da UFBA, no terreiro de Jesus (a mais antiga do Brasil), foi dissolvida pela polícia, a sala do DA (Diretório Acadêmico) invadida e sua biblioteca foi saqueada e parcialmente incinerada pelos invasores. O mesmo ocorreu na Faculdade de Odontologia, onde se esboçava um movimento de resistência ao golpe por parte de alguns estudantes. A mão pesada dos agentes da nova ordem política arrastou dali para a prisão 45 estudantes e 2 funcionários.
Apesar de fortemente golpeada e paralisada em um primeiro momento, a consciência democrática baiana jamais permitiu que se extinguisse no estado a chama da resistência. Tal pode ser conferido pelo número de parlamentares, personalidades do mundo da política e da cultura e ativistas sociais cassados, encarcerados e processados ao longo dos primeiros meses após o golpe. Além dos já mencionados, incluem-se os nomes de Francisco Mangabeira, Waldir Pires (Consultor Geral da República no final do Governo de Jango), Hélio Ramos, Fernando Santana, Mário Lima (dirigente petroleiro e parlamentar), Cícero Dantas, Mario Piva e muitos outros. Sobretudo, é importante destacar a persistente atuação oposicionista do parlamentar baiano Josaphat Marinho, sempre ao lado do ex-governador Antonio Balbino, ambos eleitos pela legenda do MDB.
Na sociedade civil, a mobilização das forças democráticas aumentou bastante no período 1966/1968 através da ação dos estudantes secundaristas e universitários, que ocuparam as ruas da cidade de Salvador em concorridas manifestações contra a proibição imposta às entidades estudantis. Tais movimentos de massas legaram exemplos e experiências que seriam retomados futuramente, quando tiveram início novas lutas anti-ditatoriais, especialmente no final dos anos 70 e início da década de 1980.
Um dos principais focos da resistência em Salvador contra o novo regime, foi o Colégio Estadual da Bahia, conhecido como Colégio Central. Alunos ligados à base secundarista do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderados por Carlos Sarno, desejosos de expressar sua insatisfação com a atmosfera político-cultural imperante através da encenação de peças teatrais, enfrentaram forte pressão das autoridades do colégio, que chegaram a proibir as apresentações. Tal proibição, por seu caráter arbitrário e despropositado, ateou fogo à inquietação dos alunos que, em face da desventura da falta das mais elementares liberdades, lançaram-se na aventura da rebelião. Logo, alunos de outros colégios da capital baiana, submetidos então a semelhantes situações discricionárias, se identificaram com as demandas dos estudantes do Central e assumiram para si as mesmas bandeiras de luta.
Os estudantes universitários da UFBA se aliaram às manifestações, atormentados pela sanha repressiva, pela aplicação das normas autocráticas do novo regime na universidade, como a Lei Suplicy Lacerda — que extinguiu a UNE e as entidades gerais dos estudantes e obrigou os Diretórios Acadêmicos no espírito da despolitização — e o Decreto 477 que punia com o afastamento da vida acadêmica os estudantes envolvidos em atividades “subversivas”. Com a ampliação do movimento de protesto, ampliou-se também a interdição, estendida a todo o município de Salvador. Como conseqüência, a capital baiana foi abalada por fortes manifestações secundaristas durante vários meses de 1966, as quais, por sua vez, reprimidas a cassetete e patas de cavalos pelas autoridades, transformaram as ruas de Salvador em um campo de batalha no qual polícia e estudantes se enfrentavam em combates desproporcionais.
A ocorrência, pela sua própria natureza, motivou a manifestação de importantes personalidades do mundo da cultura em oposição à escalada obscurantista e repressiva que naquele momento se configurava. Dezenas de intelectuais baianos, entre eles Jorge Amado, Walter da Silveira, Sante Scaldaferri, João Ubaldo Ribeiro, assinaram um manifesto em que defendiam a liberdade de expressão e manifestavam solidariedade aos secundaristas soteropolitanos.
No entanto, apesar das manifestações de solidariedade, a força prevalecia sobre a razão. Golpeado pela violência repressiva, o movimento refluía. Mas, tratava-se apenas da primeira batalha. Nas duas décadas seguintes, a oposição política e os movimentos populares reocupariam as ruas, impor-se-iam pelo número à truculência dos esbirros e sentenciariam, através do isolamento e da privação da legitimidade, a derrocada do regime ditatorial.
Os protestos de massa dos estudantes baianos transformaram-se numa escola que educou uma geração de dedicados participantes da luta contra o autoritarismo militar. Um núcleo de estudantes secundaristas, formado por Carlos Sarno, Jurema Valença, Marie Helene Russi, Chantal Russi e Nemésio Garcia, entre outros, se desligaram do PCB e formaram a Dissidência Comunista da Bahia (DI/BA), a qual, mais tarde, se integraria, à organização guerrilheira Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), um dos grupos mais ativos no movimento de luta armada contra o regime militar entre os anos 1968-1974.
Outro segmento das lideranças estudantis também se destacaria nos anos seguintes por seu comprometimento com formas mais radicais de oposição à ditadura militar. Liderado por Júlio e Juca Ferreira, Sérgio Landulfo Furtado, Renato da Silveira e José Carlos de Souza, este grupo, que também participou da formação da DI/BA, uniu-se ao Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8).
O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), outro agrupamento político militar de intensa atuação naqueles anos, também se instalou na Bahia devido à iniciativa de estudantes baianos formados nos enfrentamentos de rua de 1966. O PCBR estruturou-se em Salvador através de Renato e Marcos Affonso de Carvalho, Natur de Assis Filho e Roberto Albergaria. O PCBR foi fortalecido pelo retorno de Dirceu Régis (secundarista baiano que se destacara à frente dos estudantes do calabouço no Rio de Janeiro) e a chegada do potiguar Theodomiro Romeiro dos Santos e do recifense Paulo Pontes da Silva. Com a prisão dos membros da sua direção nacional no Rio de Janeiro em 1970 — o que acarretou inclusive a morte, por tortura, do jornalista e dirigente comunista baiano Mario Alves, natural de Sento Sé —, deu-se a transferência de seu corpo dirigente para a cidade de Salvador. Como decorrência deste fato, dois eventos de dramática relevância se verificaram na cidade: o único assalto a banco realizado por uma organização de esquerda na Bahia nos anos do regime militar, em maio de 1970, e a morte do sargento da aeronáutica Wander Xavier de Lima em confronto com os militantes Paulo Pontes, Theodomiro dos Santos e Getúlio Cabral. Este confronto resultou na condenação do jovem Theodomiro à pena de morte, fato sem precedentes na história do Brasil republicano.
A brutal repressão contra os opositores do golpe atingiu em cheio os ativistas clandestinos do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na Bahia, esta organização possuía uma boa estrutura e um quadro de membros notáveis, a exemplo de Fernando Santana, Aristeu Nogueira, Aurélio Vellame, Américo Carvalho, Juracy Paixão, Tertuliano Teixeira e outros mais, espalhados por dezenas de cidades do Estado. Alguns logo se viram obrigados ao refúgio no exterior; outros, logo presos, foram barbaramente torturados. Uns poucos conseguiram manter-se na clandestinidade. Dois casos chamam a atenção: Aristeu Nogueira, que era o secretário do partido na Bahia e figura por demais conhecida, sumiu de circulação e terminou sendo preso dois anos mais tarde no Rio de Janeiro, onde se refugiara. Barbaramente martirizado, após a anistia retornou a sua cidade natal, Irará, onde passou a advogar. O outro caso, pouco comentado, mas tão macabro quanto o de muitas outras vítimas, deu-se com Juracy Paixão. Refugiado na URSS retornou para ser preso e torturado. Foi salvo por intervenção da maçonaria, a rogo do seu pai (que era maçom). Solto, desligou-se do partido por discordar da linha que pretendia envolver-se na luta armada e afastou-se da atividade política.
Esses fatos aqui relatados têm a finalidade de qualificar a afirmação de que na Bahia, como ao longo de todo o território nacional, o golpe civil-militar de março/abril de 1964 funcionou como um divisor de águas. Assim como atraiu para si o apoio dos segmentos mais conservadores e antidemocráticos da sociedade civil, terminou também por mobilizar contra si as ações e as vontades dos setores democráticos, progressistas e reformadores da sociedade brasileira e baiana. Convém notar que, também na Bahia, as forças avançadas da cidadania não se omitiram em face da ordem ditatorial. Por meios pacíficos ou violentos, de forma moderada ou radical, na atividade político parlamentar ou na militância social, um conjunto cada vez mais amplo de personagens e atores sociais ocuparia seus lugares nas frentes de resistência ao arbítrio e à repressão, inserindo a Bahia no mapa da resistência anti-ditatorial.
Por fim, e em conclusão, deve-se destacar que o golpe de 64 levou a substanciais transformações na dinâmica do poder neste estado. A vitória da Ditadura representou, no plano local, a derrota do “populismo moderado” de Lomanto Júnior e o colapso da política pendular da ala liberal da UDN. Com a formação do Governo Castelo Branco, parte para o primeiro plano da política baiana a facção conservadora de Luiz Viana Filho. Mas, com a decretação do AI-5 e a posterior formação do governo de Garrastazu Medici, criaram-se as condições para a ascensão ao poder de forças mais afinadas com as novas diretrizes federais. Diretrizes que pressupunham a superação completa de todo o legado da república liberal e os complexos e demorados processos de constituição de maiorias políticas para a tomada de decisões. Significava “evoluir” para um sistema de administração pública verticalizado, ágil, centralizado e capaz de atender às demandas de um novo ciclo de desenvolvimento econômico acelerado, concentrador e excludente. Nestas novas condições, o tecnocrata deveria ocupar o lugar do político no plano das decisões administrativas. O alinhamento automático deveria substituir qualquer vestígio de oposição. Havia chegado afinal, a oportunidade de projeção dos atores da modernização conservadora em terras baianas. A partir do ano de 1970, eles demonstrariam sua capacidade de não desperdiçar oportunidades.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Se Cajueiro fosse Eleitor...

Não bastasse a destruição das frondosas árvores que embelezavam a Praça do Comércio e que davam harmonia às ruas Direita e Nova, agora querem as ditas “autoridades municipais” arrancar do fértil solo iraraense o frondoso cajueiro que faz paisagem com a ABB.
A justificativa – dizem – é que as frondes da bela árvore servem de refúgio para ladrões. Fosse isso motivo, não deveria haver ipês pelas avenidas do Rio de Janeiro, Foz-do-Iguaçu seria área desmatada e a Amazônia não mais existiria.
Cabe ao Poder Público garantir a segurança dos cidadãos, utilizando as ferramentas do sistema: policiamento e iluminação das vias urbanas e castigo para os facínoras.
Uma cidade com a tradição de Irará não pode se dar ao  contra-censo de “livrar-se” das árvores para afugentar bandidos. Estes, espertos, esconder-se-ão em suas próprias “sombras”.
Que a população vá às ruas, de forma pacífica, ungida pelo lema “Não votem em quem destrói paisagem, protestar contra o absurdo de privar a cidade de sua beleza natural, a pretexto de dar fuga a assaltantes.
Será que as praças e ruas iraraenses teriam perdido suas majestosas frondes se árvore votasse?

Seria o caso de o “deus das árvores”  ensinar ao Cajueiro da ABB a gritar “pega ladrão”.

Juracy  Paixão - 20/11/2013

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Eu, minha Carroça e a Velhice


Acordo cedo, por volta das quatro horas da madrugada. Mesmo que mais quisesse dormir, a necessidade de preparar os músculos para a labuta do novo dia não m’o permitiria.

Manoel, meu dono, me chama de Uisque, embora meu verdadeiro nome seja Ptolomeu. Ganhei essa identidade porque, quando jovem, gostava de brincar fazendo círculos pelo pasto. Meu tio Napoleão costumava dizer que eu era o sol girando ao redor da terra – daí o Ptolomeu. Meu tio levou o nome de Napoleão porque ele era um guerreiro nato: para laçá-lo, haveria de ter correria.

Manoel me apelidou de Uisque por pura frustração, já que somente pode beber pinga desdobrada. Resolveu ter perto de si ao menos um uisque de quatro patas. Ainda bem que o meu uisque é com U, pois abomino gringos e seria um desastre moral carregar um W no apelido. Já o Manoel, meu dono, é chamado de Mané Carroceiro o que, no mínimo, é uma falsidade pois carroceiro sou eu que passo os dias a uma carroça atrelado – carroça pequena, baixa, mas pesada.

Gosto da minha carroça. Aliás, eu é que sou dela, já que ela é a minha razão de ser. Atrelado vou passear pelas ruas, ao comando do chicote do Manoel. Não, Manoel não me bate mas me mostra o suplício a cada passo, aos gritos de “anda, burro preguiçoso!” Engraçado, o preguiçoso sou eu, que puxo a carroça, enquanto que ele vai nela sentado, a pitar cigarro e a me obrigar a ser fumante passivo.

Adoro a rua: vejo bichos de quatro e de duas patas, respiro cheiro de coisas e também fedor de monturo e me distraio sendo ofendido pelos motoristas que passam. Disfarçadamente rio-me deles, já que são obrigados a se desviarem de mim, o que me dá um certo ar de auto-confiança. Minha carroça também serve para proteger-me de alguma eventual batida traseira, visto que das dianteiras cuida o Manoel.

Todos os dias paramos – eu, a minha carroça e o meu dono – em frente à casa de Santinha. Lá, ganho água e sabugo de milho, além de um bom repouso, já que o Manoel entra para fazer travessura com a dona da casa e demora bem uma meia hora. Quando ele sai, sempre está com ar de satisfação mas não dispensa um “anda, burro preguiçoso...”.

Até hoje, apesar dos meus bons dez anos, nunca fiz travessura, não por falta de apetite, mas por absoluta ausência de oportunidade e parceria. Quando eu era adolescente, tinha uma amiga, a mulinha Cleópatra, quase da minha idade, e cheguei a pensar que aquela seria a minha companheira de travessuras, quando fosse hora, mas nosso dono a vendeu e nunca mais eu soube dela. O nome Cleópatra lhe foi atribuído porque ela costumava saltitar com o focinho empinado, tal e qual uma bela rainha. Aquela foi, até hoje, meu único e platônico amor. Bem diferente de Manoel, a quem já vi com a Imaculada, a Pureza, e agora sempre com a Santinha.

Meu pai foi um garanhão alazão muito simpático e nada esnobe, a não ser o porte. Ele tinha por nome Casanova, devido ao fato de ser muito namorador. Já minha mãe, a jumenta Safira, chamava-se assim por ser uma jóia de animal: meiga, pequena e carinhosa como somente ela sabia ser. Ela trabalhava no transporte de água para abastecer a casa-grande de seu dono, o fazendeiro Tubarão, apelido decorrente da fama que ele tinha de se apoderar das terras vizinhas mediante ameaça do seus jagunços. Meus pais morreram antes que eu atingisse a adolescência, mas recordo-me de ambos. Diziam que meu pai foi corredor antes de se dedicar à montaria de fim de semana, lazer predileto de seu último dono, o deputado Juca, apelidado de Novelo, porque sempre estava enrolado com alguma coisa. Eu nasci já na posse de Juca, que comprou a fazenda de Tubarão, dizem que com dinheiro de caixa dois. Meu segundo dono foi o Padre Romão, que criava um belo rapazote chamado Narciso, de quem diziam ter um caso com o seu protetor. De minha parte, nunca presenciei nada de anormal, ao menos para os meus parâmetros de burro e bicho. Terminei sendo dado de presente ao Narciso que logo me vendeu ao Manoel pela ninharia de oitocentos reais. Digo ninharia porque acho que eu valia e valho muito mais do que isso.

Eu não gosto do fim de expediente, devido à dúvida que sempre me bate: será que a corda vai ser curta ou comprida!? Explico: terminada a faina, o Manoel me desatrela da carroça, amarra uma corda no meu pescoço e me leva para o quintal de sua casa, onde prende a corda num moirão liso. Se a corda for comprida, menos mal, pois poderei me deslocar até o mamoeiro e nele roçar as costas, quando ataca coceira. Se for a corda curta, é uma agonia só, pois o moirão liso não serve para roçar e a solução que encontro é espojar-me no chão poeirento, o que, quase sempre, me faz fungar o focinho, devido à rinite causada pela poeira, já que sou alérgico. Será rinite ou burrite!? Afora isso e desde que não chova, até que durmo bem, pois dos mosquitos cuida o rabo. Chovendo, não tem mosquito mas bate uma frieza que fico toda a noite a arrepiar-me e a fazer “brrruuuu”. Isso sai inconscientemente. Não consigo evitar.

À noite, faço um lanche com capim seco e casca de mamão, isso quando o Manoel se lembra de servir-me antes de encher a cara. Vocês nem imaginam, mas um dia ele chegou a me oferecer um drinque: ”Toma, Uisque, vê como pinga é bom!” Recusei, pois sou abstêmio.

Durante as horas de sono, a única aporrinhação fica por conta do compadre Bispo, que cisma de vir latir perto de mim. Por causa disso, já brigamos algumas vezes e lhe apliquei uns bons coices. O compadre ganhou o nome Bispo porque sempre late no mesmo tom.

Posses eu não tenho, a não ser que considerem como meus os arreios que me são aplicados para atrelar-me à carroça e a corda que me prende ao moirão. Isso seria apropriação indébita, já que tais peças são de propriedade legal do Manoel e eu fui criado dentro do espírito da honestidade, o que me impede de apropriar-me do que não me pertence.

Lembranças, possuo muitas: lembro-me da queda que levei ao tentar andar - mal nascera - e só não me machuquei devido ao apoio que me deu minha mãezinha Safira. Lembro-me dos passeios que fazia com o Narciso, esse montado a pelo, pois eu ainda era franzino e não tinha sela que se ajustasse a mim. Ainda bem, pois sela é apetrecho fino que combina com cavalo besta e não com burro natural como eu. Além do mais, quando o montador usa sela também usa espora, para mostrar seu domínio sobre a montaria. Lembro-me do cajueiro que havia perto da casa-grande, sob cuja sombra eu gostava de dormitar, após fartar-me com os cajus caídos, já todos quase passados. Era uma farra aquilo. Lembro-me do susto que levei ao entrar na cidade, após ser comprado pelo Manoel. Vim de caminhão e quase caí da carroceria, embora estivesse amarrado pelas patas e pescoço. Lembro-me com muita saudade do capim verde que abundava na fazenda e que hoje somente vejo quando Manoel me leva até a BR. Melhor dito, quando eu o levo, pois ele é quem vai instalado no banco da carroça que eu puxo. Ele apenas indica o caminho com o chicote e aos brados de “anda, burro preguiçoso...”.

Na minha vida atual, a única coisa que me chateia é quando os amigos do Manoel nos encontram na rua e dizem: “Mané, deixa de ser burro. Vende esse burro e compra uma égua. Elas são mais espertas e mais trabalhadoras”. Acho isso uma atitude racista e preconceituosa. Afinal, quem é o burro para eles? Eu ou o Manoel? E, porque não sugerem a compra de uma mula?

Eu não tenho preocupações acerca da velhice e até a desejo, embora ainda esteja na meia idade. Sei que, quando envelhecer e não mais a carroça me quiser, vou ser solto por aí, a vagar pelos pastos – desculpem, pelas ruas. Ficarei livre da corda e poderei passear pelos terrenos baldios. Quem sabe, em um deles encontrarei a Cleópatra, minha amiga da adolescência, e então poderemos fazer travessuras!? Nos terrenos baldios sempre se acha capim verde, sabugo de milho, casca de mamão e sombra. Precisarei apenas tomar cuidado com o trânsito mas, em contrapartida, por ser idoso, terei preferência nas passagens de pedestres – ou será de patestres!?
Fico a pensar no que será do Manoel, quando ele ficar velho...???
Juracy de Oliveira Paixão
28.06.2006

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Meus queridos e minhas queridas,
Com o devido atraso, segue um novo (velho) texto.
Um abraço, Juracy

A Máquina do Tempo

Não somente em sonhos, mas também nos momentos de pouca lucidez, o Ser Humano tem desejos de viajar pelo Tempo.
Essa fria quimera, resultado de nosso medo em relação ao Futuro e de nosso remorso quanto ao Passado, sempre tem criado imagens em nossa mente com a nítida sensação da mais pura Realidade.

Ir ao Futuro, para uns, seria uma forma de saber o que se poderia consertar, no Presente, para alcançar-se a Perfeição – ou o que não fazer para evitar o Castigo.

Voltar ao Passado, para a maioria, resumir-se-ia num caminho para corrigir os males feitos e redimensionar a Vida, de modo a fugir dos danos que o Presente reserva.

No Passado ou no Futuro, o Tempo é uma grande interrogação que tanto nos assombra como nos alivia. Afinal, “o tempo tudo conserta”, não é o que se diz ???
Juracy de Oliveira Paixão ( Outubro de 1999).