quarta-feira, 11 de maio de 2016

Fortaleza, 25 de março de 2.002


Prefeitura Municipal de Canudos
Canudos – Bahia




Exmo. Senhor Prefeito,



No mês corrente, em viagem pelo interior da Bahia, estado onde nasci, incluí no meu roteiro a cidade de Canudos.

Motivou-me essa inclusão o desejo de visitar as terras do Conselheiro, figura impar na história pátria, ainda a merecer estudo mais  esclarecedor.

Baseado na cidade de  Euclides da Cunha, parti para Canudos na manhã de oito do corrente, em companhia da minha esposa. Nossa primeira surpresa, boa e bela, foi a revoada de pássaros no trecho de estrada antes de Bendegó, sobre a caatinga verdejante.

Chegamos a Canudos por volta das 10 horas da manhã, e logo nos pusemos a procurar um guia que nos conduzisse pelas paragens históricas. Nossa segunda surpresa foi decepcionante: Não havia guia, não havia folhetos explicativos, nada existia que pudesse ser utilizado por quem, chegando àquelas paragens, tão longe e tão conhecidas, precisasse de alguma informação.

Buscamos a agência dos Correios, onde nos sugeriram   ir ao Museu Popular. Lá,  a funcionária se limitou a abrir uma sala onde alguns objetos estavam distribuídos em estantes mal cuidadas, sem nenhuma identificação. Aquela funcionária – pobre mocinha despreparada – não sabia dar, sequer, uma informação mais concisa sobre os pontos históricos.

Dirigimo-nos ao Memorial, que se encontrava fechado, embora fosse, já, 11 horas da manhã. Não havia ali ninguém para, sequer, dizer um Bom Dia.

Temeroso de perder a viagem longa e cansativa, resolvi telefonar para a Prefeitura. Atendido por uma funcionária, fui posto  em contato com alguém que se identificou como Secretário de Educação e Cultura. Pedi-lhe que me indicasse um lugar onde pudesse obter um guia e sua resposta foi: “Guia, aqui, não há. Lamento muito não poder lhe ajudar”.

Resolvemos apelar para a boa vontade dos transeuntes, o que resultou  por ficarmos informados de que podíamos ir á parede do açude, visitar o Morro do Conselheiro e nada mais. Fizemos esse roteiro, na falta de outra opção.

Na volta, nossa terceira surpresa, e boa: achamos a entrada do Parque Estadual, onde um funcionário zeloso nos deu algumas orientações. Pena que ele, sozinho, não nos pôde acompanhar na visita que fizemos ao local. Ali também faltava um folheto de orientação.

Exmo. Senhor Prefeito, é por demais sabido que uma das atividade econômicas que mais crescem atualmente é a do turismo. Essa atividade, Senhor Prefeito, exige pouco investimento material, visto que pode ser incrementada com o uso dos recursos humanos e naturais de cada região. Num sítio histórico importante como Canudos, todos poderiam lucrar se uma estrutura mínima de recepção ao visitante fosse montada, com o treinamento de jovens do lugar para a atividade de guias, com a distribuição de folhetos explicativos e a formação de pontos de apoio ao longo dos locais de visitação. Certamente, o administrador público que tomar essa iniciativa ficará lembrado como um benfeitor.

Pense  no assunto, Exmo. Senhor Prefeito.


Atenciosamente,



Juracy de Oliveira Paixão

VEJA

Diretor de Redação

Caixa Postal 11079

05422-970         São Paulo/SP


Senhor Redator,


Assíduo leitor do Roberto Pompeu de Toledo,  sempre o tive como o parâmetro certo do bom jornalismo, aquele voltado para a ética e a cidadania, sem prejuízo da informação concisa, do comentário correto e pensado. Para minha surpresa, no ensaio dessa semana (Veja nr. 1703), intitulado “Notas para um dicionário brasileiro de política”, o ensaísta demonstrou, salvo melhor juízo, posições discriminatórias, cheias de ironia que pesam pela ausência (momentânea) de equilíbrio no ato de escrever para a sociedade. Ressalvo, desde já, que essa ocorrência isolada não me afastará do hábito de lê-lo semanalmente.

Observe-se o que está dito no texto mencionado, sobre o estado da Bahia: “ Estado brasileiro que, não fosse a anomalia ortográfica representado pelo “h” sem função fonética ...... A sina da Bahia tem sido a de chegar perto.”

Sabe muito bem o grande ensaísta que nomes históricos, geográficos e, mesmo, nomes pessoais, não estão necessariamente obrigados ao rigor da ortografia oficial.

Bahia sem o “h” seria uma baia qualquer, mero acidente geográfico, tal como seria o Rio de Janeiro sem o “Janeiro” (embora seja o Rio rio de todos os meses...).
Imagine-se  o Kubitschek do mineiro  Juscelino sem o “ts”: muda na pronúncia, faz essa junção de consoantes parte integrante do nome tão querido de tantos brasileiros ( em que pese a divida externa gerada pela construção de Brasília...).

Apesar da ironia discriminatória presente na frase “ A sina da Bahia tem sido a de chegar perto.”,  o escrito me dá a satisfação de ver que a sina, na verdade, tem sido do Brasil em não ter merecido um presidente baiano,  o qual, certamente, não teria conduzido o país para a situação de mero cumpridor de deveres estabelecidos pelos organismos internacionais, e nem deixaria que iniciássemos o terceiro milênio nas trevas reais do apagão anunciado aos quatro ventos.

Quem sabe não sejamos nós, eleitores dos tempos da República, menos capazes do que aqueles que escolhiam os políticos maiores na época do Império...

Teria sido o ensaísta menos infeliz se, no lugar dos comentários discriminatórios em relação à Bahia, mencionasse  FHC na sua lista de siglas, item esse  que será por muito tempo lembrado como sinônimo de desgoverno, despotismo e submissão ao neo-liberalismo.


Juracy de Oliveira Paixão  ( com a anomalia do “y” )


As Muralhas da Cidade



Na Idade Média, os despóticos governantes, pressionados pelo povo e temerosos da derrocada, construíam fortificações ao redor das cidades, visando protegê-las contra o inimigo externo. Tais fortificações, muralhas de cal e pedra, transformaram-se em verdadeiras obras primas, muitas delas ainda sobrevivendo ao passar do tempo. Os habitantes , sentindo-se devidamente guardados, levavam sua vida de súditos na tranqüilidade permitida pela miséria e ignorância de então.

Nossa Fortaleza, loira desposada pelo sol, também possui suas muralhas, que a protegem, não do inimigo externo, mas da beleza do mar, do verde das matas ciliares de seus rios, da natureza que a corta e cerca. Tais muralhas, construídas sob o olhar complacente dos governantes democráticos de hoje,  impedem  que seus habitantes, nem tão miseráveis nem tão ignorantes, possam ver o verde do mar bravio, a beleza das plantas e o correr das águas.

Evidentemente que estou me referindo às barreiras de arranha-céus que se erguem na faixa litorânea e às margens do Cocó, num verdadeiro atentado contra o direito de convivermos em harmonia com a natureza.

Os governantes de hoje, eleitos pelo povo, são incapazes de entender que a proteção que o cidadão precisa  não é a das fortalezas da Idade Média, mas a decorrente da conquista democrática  e da cidadania. Incapazes – ou coniventes –, tais governantes se limitam a assinar decretos, a promulgar leis e a recolher taxas. O resultado é o isolamento crescente da população em verdadeiros currais de concreto. Esta, indefesa, vê seu patrimônio natural ser dilapidado pela insânia e pela ganância desenfreada dos especuladores.

Cada vez menos nossa vista pode vislumbrar o azul do mar; cada vez menos sobra espaço para as verdes plantas vicejarem. Os rios, espremidos e poluídos, secam.

Os órgãos de fiscalização se limitam ao texto regulamentador de normas e leis arbitrárias, que nada garantem:

Os Órgãos de Classe verificam se a obra em curso tem um técnico responsável. Não importa se o empreendimento é responsável. O que tem valor e a existência corporativista de um técnico assinando a barbárie.
A SEMACE cobra uma análise de impacto ambiental. O que se busca não é evitar esse impacto, mas constatar se a natureza, agredida, agüenta mais uma agressão.
A Prefeitura quer saber se um alvará foi concedido, com o devido preenchimento das petições e recolhimento das taxas. O orçamento municipal precisa ser alcançado, mesmo que seja às custas da natureza.
Os Guardiães das Leis respondem que somente podem agir se provocados, embora os caminhos para a provocação sejam cobertos de pedras pontiagudas.
O Estado, sobranceiro, diz que o problema não é de sua alçada. Como sabido, a omissão é a mais grave forma de conivência.

Cabe ao povo apenas lamentar que a evolução dos tempos tenha feito prosperar a insanidade, a desídia e a absoluta falta de responsabilidade.

O Cocó, e suas margens, pede socorro. Somente uma cruzada cívica dos cidadãos conscientes, como se fazia na Idade Média, poderá garantir a preservação do que ainda nos resta de natureza.

Juracy de Oliveira Paixão

Aristeu Nogueira, sinônimo de Cidadania

Juracy de Oliveira Paixão


Amigos, parentes e a Internet me informaram da viagem derradeira de Aristeu.  Recebida a notícia, abriu-se-me a lembrança para fatos dos Anos 50/60, quando as lutas sociais atingiram seu ápice no Brasil, que se redemocratizara – embora os ditos “guardiões da democracia” já articulassem novo e cruento golpe.

Aristeu, naqueles anos, era membro do Comitê Central do então PCB (Partido Comunista Brasileiro) na semi-legalidade e dirigente máximo da organização no Estado da Bahia. Seu escritório, sobre uma loja de sapatos da Avenida Sete, quase sob a proteção do Relógio de São Pedro, era o centro estratégico dos movimentos revolucionários na Bahia. Dali, Aristeu definia rumo para as greves e passeatas, acalmava radicais que pensavam no poder pela via do confronto, animava os que punham pouca fé na disposição reformista de Jango, distribuía instruções aos “funcionários” do aparelho - aqueles que viviam do e para o Partido.

Naqueles anos, nenhuma força política progressista julgava-se capaz de dispensar a participação do PCB em qualquer ação pública, fosse ela uma simples passeata de estudantes secundaristas ou o mais radical avanço das Ligas Camponesas.

Aristeu, com seu jeito maroto de sorrir sisudo, sabia reconhecer no mais humilde companheiro o mérito revolucionário. Punha, contudo, - leal e fiel homem de partido que era - a organização partidária acima de posições, importâncias e conveniências. A ele aplicava-se, sem perda de vírgulas, a afirmativa de Bertold Brecht: “Mostre-nos o caminho a tomar que nós o seguiremos com você, mas não tome o caminho certo sem nós. Sem nós, este é o mais falso dos caminhos”.

Sobrevivente sofrido dos anos de chumbo, Aristeu agasalhou-se em seu Irará, talvez atraído pela imagem do velho sobrado dos Nogueira. Em sua cidadezinha voltou à faina do Direito, opção da juventude e porta escancarada que o conduziu ao caminho político escolhido. Faleceu como viveu: na humildade, na lealdade, na solidão – mas comunista de quatro costados.

Soube que ao seu funeral apenas compareceram familiares, alguns poucos amigos e um ou outro cidadão conterrâneo, além de colegas do Direito. A elite (falida e hipócrita) da cidade ignorou sua marcha final. Os políticos de ocasião – aqueles que ainda julgam ter o comando dos cabrestos - puseram venda nos olhos. Os primeiros, certamente, marcaram ausência pela discriminação que sempre dedicaram aos comunistas declarados; os segundos, por julgarem que “Aristeu não tem votos”.

Aristeu foi feliz neste seu último momento: desceu seus sete palmos sem a presença hipócrita da falsa elite e sem as lágrimas de crocodilo dos supostos donos do poder. Desceu seus sete palmos para, em novo aparelho, encontrar-se com Raul Cruz, com Pedro de Tiano, com Lenine e com Karl Marx, a fim de discutirem sobre uma nova tese que logo será o dilema dos que permanecem vivos: “a Revolução se dará, mesmo que, para tanto, as décadas se sucedam”. Quando chegar a hora, serão aristeus, lenines e semelhantes que estarão à frente da ação e da marcha, priorizando aquilo que a pretensa elite e os falsos políticos mais abominam: a Cidadania.


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Ah, Se  Eu Fosse...

Ah se eu fosse
Batata-doce...
Enraizar-me-ia pelas redondezas,
Para tornar as formigas
Obesas.
Cozida,
Seria regalia
Para a maioria.
Assada e moída,
Poderia passar por cocada.
Irararaense de nascença,
Iria até Valença 
Servir de tira-gosto na  cachaçada.
Marcharia
De Irará até  
Coração-de-Maria,
Passando pelo Pedrão,
Onde faria o papel de Pão.
Em Bento-Simões 
Somente valeria dois tostões,
Devido à fartura.
Que amargura....
Logo eu, tão adocicada,
Custaria quase nada
Na terra dos "Dois Leões".
Em Água Fria
Algo eu valeria...
Havendo pouco,
Seria um sufoco.
No Distrito de Quaresma 
Só me achariam na feira.
Afinal, não  sou lesma
Para servir de anzoleira.
Em Ouriçangas
Seria um sucesso.
Depois, dentro das capangas,
Iria até  Alagoinhas,
Já  no caminho da capital.
E, afinal,
Sendo vista como iguaria,
Alcançaria a Velha Bahia,
Terra de Todos-Os-Santos.
Lá, para toda a freguesia
Da Cidade Alta e Baixa,
Eu seria como mantos
Que nos rostos de encaixam
A acalentar os prantos
Dos que não têm alegria.
Ah, se eu fosse
Batata-Doce..
Ou, quem sabe...
Rapadura...

Que doçura.
A viagem de Aristeu rumo ao Desconhecido

                                                                                                  Juracy Paixão (Mar/2003)

Dois dias após o Golpe de 31 de Março, encontrei Aristeu na Avenida Getúlio Vargas, próximo ao Farol da Barra, dentro de um táxi de um militante do Partido. Esse encontro fora acertado ainda no dia 31, na sede do Partido, na Avenida Sete de Setembro, próxima ao Relógio de São Pedro. Trocamos algumas idéias, deu-me ele algumas instruções e nos despedimos: ele, para a clandestinidade absoluta; eu, para o isolamento dos que ficaram sem rumo. Naquela época, Aristeu era o Secretário Geral do Partido na Bahia e membro do Comitê Central. Eu era membro da direção estadual e ocupava o cargo de Contato com o Interior (eu era um comunista profissional).

Passaram-se meses. Já sendo procurado pelo DOPS, entro na clandestinidade. Morava, com Helenice e meus filhos, em uma casa alugada pelo Partido, na Vila Paulista, uma travessa entre o Corta-Braço e o Pero Vaz. Pela minha casa passaram, escondidos, Américo Carvalho, Percílio e Pedro de Tiano. Dentro do Partido, somente Aurélio Vellame sabia do meu endereço. Fora do Partido, apenas meu pai o conhecia.

Em meados de julho de 64, compareci a um ponto, na Barroquinha, para os acertos sobre uma reunião a ser realizada com outros membros da direção estadual, ainda soltos. Seria uma reunião de reorganização do Partido, com a presença de um representante da Direção Nacional, Dácio Lopes, sindicalista carioca a serviço do Partido (estivera um tempo em Salvador, antes do Golpe. Retornara ao Rio por volta de janeiro de 1964 e, agora, viera com instruções).

A reunião deu-se em um sítio próximo a Campinas, na saída de Salvador. Lá estavam membros do partido de Sergipe, Alagoas e Bahia. O objetivo da reunião era a reestruturação nos respectivos estados e a formação de um elo que permitisse eventual articulação regional. Dácio comandou a reunião, que durou dois dias.

Após a reunião, Dácio disse-me que tinha uma tarefa especial para mim: retirar Aristeu da Bahia, onde ele era procurado como um troféu, e encaminhá-lo para o Rio de Janeiro, onde, além de ficar mais seguro (já que lá não era conhecido), estaria em contato permanente com os demais dirigentes nacionais. Segundo Dácio, a suposição mais concreta era de que Aristeu poderia estar escondido em Irará, “onde tinha familiares e amigos extra-partido”. Discordei da tese, por dois motivos: no Irará de então, comunistas não tinham amigos extra-partido (embora fosse a cidade considerada a Moscouzinha da Bahia) e os parentes de Aristeu eram por demais conhecidos para que se arriscassem a escondê-lo. Diante da insistência, contudo, dispus-me a efetuar a busca.

Como, àquela altura, eu também já estava sob procura policial, fui a Irará via Feira de Santana, onde peguei um táxi: cheguei ao portão dos fundos da casa de papai por volta das oito horas da noite de um dia não recordado – entre meados de julho e meados de agosto de 1964. Papai me recebeu temeroso: sabia do que me rondava e sabia como a cidade estava sendo vigiada. Falei-lhe da minha tarefa e ele, de pronto, respondeu: “Se Aristeu estivesse aqui, eu saberia. Mas, vamos procurar Alberto Nogueira”. Preferi procurar, primeiro, Raul Cruz. Naquela mesma noite, fui ao Bongue, com papai, falar com Raul. A opinião de Raul era a mesma que eu tinha manifestado ao Dácio: Aristeu não poderia estar em Irará, sobretudo sem que ele - Raul - disso soubesse. Falei de Alberto Nogueira e Raul concordou que valia a pena conversar com ele. Fui, com papai, procurar Alberto. Ele foi incisivo: ”Aristeu não mais deu notícias e não está por aqui. Talvez Amadeu possa ser de alguma ajuda”. Era uma importante informação, já que Amadeu morava em Feira, onde havia de ter mais recursos para um possível esconderijo insuspeito.

Meu relacionamento com Amadeu não passava do simples conhecimento de um filho de Irará, jovem, em relação a um importante cidadão da terra. Seriam remotas as possibilidades de Amadeu me dar alguma informação. Optei por pedir a papai que fosse a Feira de Santana conversar com Amadeu e falar-lhe da minha tarefa, reforçando a necessidade de obter a ajuda dele para localizar Aristeu. Papai era um velho amigo de Amadeu, desde os tempos em que este comercializava couros em nossa cidade. Assim, as chances de uma conversa produtiva eram maiores do que se fosse diretamente comigo. Acertei com papai que ele, assim que falasse com Amadeu, me procuraria em Salvador para me dar uma posição. Voltei a Salvador, no dia seguinte, de carona na boleia de um caminhão.

Uns dias depois, recebo a visita de meu pai com a resposta de Amadeu: eu deveria ir a Feira de Santana na próxima segunda-feira, com tempo para lá permanecer por uns dois a três dias e procurá-lo em uma loja que vendia objetos de couro (ou malas, não me recordo ao certo). Assim fiz.

Encontrando Amadeu, este me orientou: “Procure-me, lá em casa, por volta das duas horas da tarde”. Às duas em ponto, procurei Amadeu em sua casa. Ele me apresentou a um agricultor de uns 50 anos de idade e me falou: ”Acompanhe a ele sem fazer perguntas. Tudo dará certo”. Saí na companhia do agricultor (cujo nome não me recordo) e embarcamos em uma caminhão (tipo pau-de-arara) que se encontrava na Praça Fróes da Mota. Viajamos cerca de duas horas e saltamos do caminhão em uma estrada de barro, junto a uma cancela. O caminhão seguiu em frente e nós fomos ao encontro de um rapaz que segurava dois cavalos selados. A cavalo, por volta de mais uma hora de viagem, chegamos a uma pequena casa de fazenda, onde me dei de frente com Aristeu Nogueira, o chefe do PCB na Bahia. Aristeu estava de bom humor e com aparência sadia. Abraçamo-nos e fomos conversar, sozinhos, em uma varanda lateral. Falei-lhe da tarefa que recebera e da necessidade urgente de ele sair da Bahia. Concordou, mas perguntou pelo plano de saída. Respondi-lhe que o plano seria traçado a partir daquele momento, já que eu o havia encontrado. Acertamos que eu daria notícias através de Amadeu, com os detalhes necessários para a sua retirada. Perguntei se ele tinha um documento com foto, pois seria preciso obter uma carteira de identidade com um nome insuspeito, para eventual batida policial durante a sua viagem. Ele não tinha documento em mãos, mas tinha uma foto. Era o suficiente.

No dia seguinte, retornei a Feira, primeiro a cavalo, depois numa kombi de passageiros. Chegado a Salvador, marquei um encontro com Dácio e traçamos o plano: Aristeu sairia de Feira no carro emprestado por um companheiro de partido e iria comigo até a cidade de Medina, em Minas Gerais. Lá, um outro companheiro o apanharia para levá-lo até o Rio de Janeiro. O endereço que ele deveria procurar no Rio, eu somente tomaria conhecimento no dia em que fosse apanhá-lo em Feira. Medida de segurança. Na mesma semana, Dácio conseguiu o empréstimo do fusca vermelho de Luís Contreiras, conhecido comunista da velha guarda. O carro seria emprestado com motorista de confiança, sem que nem mesmo seu dono soubesse a finalidade do empréstimo. Combinado o dia, voltei a Feira para acertar com Amadeu os detalhes: Aristeu deveria estar em Feira na madrugada da segunda-feira seguinte (segunda-feira era o dia da tradicional feira da cidade, o que aumentava a segurança). Por volta das quatro horas da manhã eu o apanharia. Amadeu decidiu que o local do encontro seria a sua própria casa. Achei perigoso, mas não havia outra possibilidade.

No dia aprazado, saí de Salvador por volta das duas horas da madrugada, na companhia de um rapaz desconhecido, que era o motorista de Luís Contreiras. Mal nos falamos. Paramos o fusca umas quadras antes da casa de Amadeu e eu fui a pé, encontrar Aristeu. Eram quatro horas da manhã. Ele já estava com uma sacola arrumada, café tomado e, tenso, na espera. Conforme combinado, assim que saímos no portão, o fusca se aproximou e iniciamos nossa viagem. Entreguei-lhe, logo, sua nova identidade (não me recordo do nome usado) Quanto ao endereço no Rio, minha instrução era somente entregar-lhe quando nos despedíssemos, em Medina.

Seguimos viagem pela BR-116 e somente paramos em Jequié para abastecer, num posto de estrada. Aristeu, no banco de trás, conversava amenidades, conforme havíamos combinado.

Aristeu sofria de um problema nos pés, o que o obrigava a usar uma palmilha especial nos sapatos. Seus sapatos estavam sem tal apetrecho. Resolvemos entrar em Vitória da Conquista para comprar a palmilha. Paramos em frente a uma sapataria e eu fui efetuar a compra. Ao retornar ao carro, Aristeu estava escondido por trás dos bancos. Perguntei-lhe o que houve e ele respondeu: “Imagine que passou aí pelo passeio um conhecido meu, de quem se desconfia que anda denunciando gente. Tomei um susto enorme e me escondi. Ele não teve tempo de me ver”.

Seguimos viagem até Medina. No posto rodoviário da divisa BA/MG não tivemos dificuldade alguma. Não me recordo da hora da chegada. Fomos direto para uma pensão já previamente definida, onde ele saltou. Aí, entreguei-lhe o endereço do seu destino no Rio, a senha para o novo acompanhante e algum dinheiro (não me recordo quanto). Voltei para Salvador. Terminara a minha aventura e a minha tarefa.

Parti para Moscou em meados de outubro de 64. Somente voltei a ver Aristeu em 1986, quando ele foi advogado do divórcio de meu casamento com Helenice (sobrinha de Elsa de Aristides). Nessa ocasião, conversamos por muitas horas. Fiquei, então, sabendo do resto da saga: o companheiro que deveria encontrá-lo em Medina não apareceu. Após esperar por dois dias, ele achou que o tal companheiro poderia ter sido preso e o melhor era apressar sua saída para o Rio, mesmo sozinho. Partiu de ônibus. Ao chegar à rodoviária do Rio, deu o endereço a um taxista. Durante o trajeto pelas ruas do Rio, notou que o taxista o olhava com insistência. Em determinado momento, o taxista parou o carro e falou-lhe: “O companheiro é comunista? Se é. não vá para este endereço. A polícia deu uma batida lá, na semana passada, e prendeu algumas pessoas”. Aristeu contou-me que, diante da surpresa e do inusitado, preferiu abrir o jogo: “Sou comunista e estou procurando um esconderijo”. O motorista respondeu-lhe que também pertencia ao Partido e que iria levá-lo para sua casa, até que ele conseguisse estabelecer novo contato com o Partido. O contato se deu após algum tempo e Aristeu deu início a uma nova saga.


Meu papel, eu o cumpri e dele me orgulho. Não digo que salvei Aristeu da morte prometida, mas contribuí para que sua vida de revolucionário fosse preservada.
A Conquista da Lua

                                                                       Juracy Paixão

“... e a nave brilhante, plena de homens audazes, alça-seno espaço impenetrável, em busca do desconhecido”. Assim, o ”vidente” JúlioVerne fala da viagem do homem à Lua. Entre tantas maravilhas criadas, dentre tantas coisas descobertas, nada foi tão aguardado como a conquista da Lua pelo homem. Não foi o feito de uma nação... Foi um feito da Humanidade.

Dois países antagônicos na política, nos costumes, no modo de vida, perseguiram e se perseguiram, passo a passo, no caminho da Lua. A fita de chegada tinha que ser cortada por um deles, gigantes preparados para uma luta gigante. Ao vencedor os loiros, à Humanidade a vitória.

Muito mais conquista do que pesquisa, as tentativas de alcançar o nosso satélite natural ofereceram, contudo ,uma série de vantagens para toda a população do planeta: desde o desenvolvimento miraculoso das comunicações a longa distância, até os novos e ultra-modernos processos de propulsão, de análise, de imunização. Porém, num mundo dividido entre a abundância e a escassez, entre a saúde e a doença, entre o conhecimento e a ignorância, poucos são os que se sentem heróis por pertencerem a um planeta que se arroja pelo Espaço Incomensurável.

Enquanto americanos contemplavam o Espaço Azul onde penetraram os seus ídolos e a sua bandeira, vietnamitas temiam o mesmo Azul de onde caíam e caem bombas que destroem suas cidades e matam suas crianças... Enquanto Armstrong e seus companheiros se alimentavam de banquetes cientificamente elaborados, indianos morriam à mingua nas ruas de Calcutá e Nova Delhi... Enquanto uma multidão ululante de alegria e entusiasmo recepcionava a volta triunfal da nave Apolo, outra multidão, cheia de ódio e recalques, espezinhava e chacinava negros, na negra África do Sul.... Enquanto judeus do mundo inteiro, lado a lado com os povos dos países que os acolheram, saudavam a vitória da técnica do judeu Von Braun (técnica que foi propriedade dos destruidores de judeus), israelenses matavam árabes que nada mais queriam do que suas terras pelas armas ocupadas.

Assim é a realidade: não que a ciência deva parar de alcançar êxitos, só porque deixa atrás de si problemas insolucionados; porém, num mundo de guerras, ódios e vinganças, até os feitos magníficos saem manchados de sangue e a melhor das vitórias não passa de uma Vitória de Pirro.


                                                           Publicado em “O Manacá”

                                                           Valença/BA – Abr.71