quarta-feira, 11 de maio de 2016

Irará, Moscou & Saudosismo



Situada na linha divisória entre o Recôncavo e a Caatinga, a cidade baiana de Irará é um primor de exclusividades.

Nos anos 50 e 60 foi considerada a Moscouzinha da Bahia, devido ao elevado número de comunistas iraraenses em relação à pequena população local. E eram comunistas famosos, como Aristeu Nogueira, Raul Cruz, Fernando Santana, Tertuliano Teixeira, dentre tantos outros que agitavam a cena revolucionária da Bahia de então, dispostos a darem suas vidas para mudar o mundo.
Berço de um considerável número de artistas dos mais variados matizes, tem, da nova geração, nomes como Zé Nogueira, João Cerqueira, as ceramistas Nem, Dôli, Dinha, Bel – apenas para citar algumas -, e dezenas de outros que pintam, compõem, cantam, gravam, imprimem, fazem... Até o Dida, goleiro da seleção, em Irará pôs os pés no mundo.
Da velha guarda, nomes como Tom Zé, Mestre Maçu, Almiro de Oliveira, Mestre Panta, Maestro Aniceto Cruz, Maestro Xaxá, Ovídio Santa Fé, Fred Dantas, apenas dão início a uma longa lista.
Terra de Nossa Senhora da Purificação, reza por todos os credos com devoção e fervor, festejando-os com a alegria própria do bom baiano.
Ser iraraense é uma benção dos céus. Naquele recanto, respira-se um ar especial, embora quente, à sombra das poucas árvores que a Prefeitura deixa de pé.
Como bem disse um patrício da nova guarda, Roberto Martins, todo iraraense é de um pai e de uma mãe: Fulano, filho de Beltrana e de Sicrano. Assim, não se tem dúvidas a respeito de quem se fala.
Ir a Irará, ao menos uma vez por ano, é dever de quem lá nasceu, dever cumprido à risca, seja para ouvir as bandas locais, seja para os festejos de São João ou para as festas da Padroeira, seja para rememorar o passado. Anda-se por aqueles caminhos, outrora poeirentos, como se fossem as alamedas do Bois de Bologne. Olha-se o velho sobrado do Cel. Elpídio Nogueira como a mirar o Coliseu Romano, sobe-se a ladeira da fonte como se fosse a colina do Parthenon.

Iraraense de quatro costados, encontrei, nos meus 20 anos de Fortaleza, a felicidade tão buscada. Como os demais, vou ao torrão natal todos os anos, no meu caso com o saudosismo dos que descem a ladeira da vida com os olhos mirando para o alto. Lá, na Moscouzinha da Bahia, relembro meu refúgio na verdadeira Moscou, para onde fui, meados dos anos 60, a fim de escapar das garras ferozes e assassinas dos anos de chumbo. Na minha cidade, sertão seco e pobre, relembro do aconchegante frio moscovita. Revejo, na praça da Matriz, o Teatro Bolchói. Pelos caminhos da Mangabeira, alcanço o Parque Górki. No Comércio, sinto-me na Praça Vermelha, a olhar os muros do Kremlin. Descendo a rua de Baixo, estou a caminhar pela Lênine Prospekt. No velho bar do Coronel, bebo vodka como o fazia no Beriozka do Hotel Aeroflot.  Se entro na Casa de Cultura, estou a visitar as galerias da Úlitsa Arbat. Apreciando a Filarmônica 25 de dezembro, pranteio, como se escutasse as melodias do Coral Púchkin. A velha casa da família é a datcha dos meus dias de férias, nos arredores da capital da URSS. Inconscientemente, murmuro: Za izdarovie, Spassibo, Karachô, Továrich.

Nesses tempos do ético, social e politicamente correto, em que a revolução ideológica deu lugar à das palavras, espero que o meu Irará faça jus ao seus guerreiros do passado, mereça os artistas de hoje e construa uma sociedade mais justa. Dô cvidânia.

Juracy de Oliveira Paixão


Seleção, Razão & Fonte


Há 44 anos o cronista arremedo deixou a cidade, seu Irará, e por vários anos não retornou. Depois, tempo sim, tempo não, aparecia a título de abraçar os parentes e amigos, olhar a velha casa paterna. Na verdade, o que ele queria rever era sua cidade, tal e qual nos seus sonhos. A partida foi conseqüência do que lhe ensinara seu pai – ir à luta, com coragem e determinação. Em outras plagas mirou novas paisagens, coloriu muros com piche, ouviu verbos plenos de esperança, bafejou e foi bafejado por azares e sortes, quis mudar o mundo, fazer revolução A seu modo, a fez. De vermelho pintou seu coração grená, cravando nele foice e martelo. Em berioskas bebeu vodka como se fosse “Dois Leões”. Na Praça Vermelha orou no túmulo de Lénine, rogando pelo triunfo do socialismo em sua pátria. Cada muro que pichou, cada vez que ergueu os braços, cada panfleto que distribuiu, cada choro que lhe afogou os olhos calaram fundo na memória, preenchendo espaços ou substituindo ilusões. Um canto, porém, do seu cinzento jamais foi abalado: aquele que registrou, como o bom carimbo em almofada molhada, as coisas que viu, ouviu e participou no seu Irará querido.

A memória viva é a Fonte de onde jorrou as páginas a seguir. Erros há, pois errar é acertar a vida. Espera-se da crítica construtiva a ajuda para os consertos.

O cronista arremedo optou pelo estilo coloquial-barroco – invenção sua – aquele que caça uma ortografia justa mas deixa de lado a prepotência da Pontuação Absoluta, da Concordância Rigorosa, da Semântica Elitista e de outros atributos gramaticais. Deixou-os de lado não por ignorar seus méritos, mas por julga-los inadequados ao espírito do objetivo traçado. Sabe que tal perjúrio será motivo para arder em fogueira.

O incentivo veio da rija índia cearense, sua Bethe, flor mimosa e perfumada, cactus sem espinho a florescer em árido sertão. As lacunas da memória – lacunas sem vazio, diga-se de passagem – foram sanadas pelo apoio certo das irmãs Ivanete, Hilda e Jandira, além da comadre Peta, da colega Lindinalva e da grande amiga Nete (do seu velho companheiro Lito).

A Razão nasceu da teimosia dos sonhos a insistir no registro. Sonhar faz bem, mesmo quando pesadelo, esse um alerta para a atenção no risco. Sonha-se quando o subconsciente quer conversar, meter papo novo na rotina do consciente. Do sonho para a realidade é uma simples questão de ajuste.

Os sonhos fizeram a seleção. Um desejo – quem sabe – de ter sido o cronista arremedo cada um dos personagens retratados, essências puras do que considera virtude, prazer, perseverança, caráter, consciência, humanidade.

O Bem está feito. Ou será o Mal ?!


Juracy de Oliveira Paixão




Eu, minha Carroça e a Velhice



            Acordo cedo, por volta das quatro horas da madrugada. Mesmo que mais quisesse dormir, a necessidade de preparar os músculos para a labuta do novo dia não m’o permitiria.
            Manoel, meu dono, me chama de Uisque, embora meu verdadeiro nome seja Ptolomeu. Ganhei essa identidade porque, quando jovem, gostava de brincar fazendo círculos pelo pasto. Meu tio Napoleão costumava dizer que eu era o sol girando ao redor da terra – daí o Ptolomeu. Meu tio levou o nome de Napoleão porque ele era um guerreiro nato: para laçá-lo, haveria de ter correria.
            Manoel me apelidou de Uisque por pura frustração, já que somente pode beber pinga desdobrada. Resolveu ter perto de si ao menos um uisque de quatro patas. Ainda bem que o meu uisque é com U, pois abomino gringos e seria um desastre moral carregar um W no apelido. Já o Manoel, meu dono, é chamado de Mané Carroceiro o que, no mínimo, é uma falsidade pois carroceiro sou eu que passo os dias a uma carroça atrelado – carroça pequena, baixa, mas pesada.
            Gosto da minha carroça. Aliás, eu é que sou dela, já que ela é a minha razão de ser. Atrelado vou passear pelas ruas, ao comando do chicote do Manoel. Não, Manoel não me bate mas me mostra o suplício a cada passo, aos gritos de “anda, burro preguiçoso!” Engraçado, o preguiçoso sou eu, que puxo a carroça, enquanto que ele vai nela sentado, a pitar cigarro e a me obrigar a ser fumante passivo.
            Adoro a rua: vejo bichos de quatro e de duas patas, respiro cheiro de coisas e também fedor de monturo e me distraio sendo ofendido pelos motoristas que passam. Disfarçadamente rio-me deles, já que são obrigados a se desviarem de mim, o que me dá um certo ar de auto-confiança. Minha carroça também serve para proteger-me de alguma eventual batida traseira, visto que das dianteiras cuida o Manoel.
            Todos os dias paramos – eu, a minha carroça e o meu dono – em frente à casa de Santinha. Lá, ganho água e sabugo de milho, além de um bom repouso, já que o Manoel entra para fazer travessura com a dona da casa e demora bem uma meia hora. Quando ele sai, sempre está com ar de satisfação mas não dispensa um “anda, burro preguiçoso...”.
            Até hoje, apesar dos meus bons dez anos, nunca fiz travessura, não por falta de apetite, mas por absoluta ausência de oportunidade e parceria. Quando eu era adolescente, tinha uma amiga, a mulinha Cleópatra, quase da minha idade, e cheguei a pensar que aquela seria a minha companheira de travessuras, quando fosse hora, mas nosso dono a vendeu e nunca mais eu soube dela. O nome Cleópatra lhe foi atribuído porque ela costumava saltitar com o focinho empinado, tal e qual uma bela rainha. Aquela foi, até hoje, meu único e platônico amor. Bem diferente de Manoel, a quem já vi com a Imaculada, a Pureza, e agora sempre com a Santinha.
            Meu pai foi um garanhão alazão muito simpático e nada esnobe, a não ser o porte. Ele tinha por nome Casanova, devido ao fato de ser muito namorador. Já minha mãe, a jumenta Safira, chamava-se assim por ser uma jóia de animal: meiga, pequena e carinhosa como somente ela sabia ser. Ela trabalhava no transporte de água para abastecer a casa-grande de seu dono, o fazendeiro Tubarão, apelido decorrente da fama que ele tinha de se apoderar das terras vizinhas mediante ameaça do seus jagunços. Meus pais morreram antes que eu atingisse a adolescência, mas recordo-me de ambos. Diziam que meu pai foi corredor antes de se dedicar à montaria de fim de semana, lazer predileto de seu último dono, o deputado Juca, apelidado de Novelo, porque sempre estava enrolado com alguma coisa. Eu nasci já na posse de Juca, que comprou a fazenda de Tubarão, dizem que com dinheiro de caixa dois. Meu segundo dono foi o Padre Romão, que criava um belo rapazote chamado Narciso, de quem diziam ter um caso com o seu protetor. De minha parte, nunca presenciei nada de anormal, ao menos para os meus parâmetros de burro e bicho. Terminei sendo dado de presente ao Narciso que logo me vendeu ao Manoel pela ninharia de oitocentos reais. Digo ninharia porque acho que eu valia e valho muito mais do que isso.
            Eu não gosto do fim de expediente, devido à dúvida que sempre me bate: será que a corda vai ser curta ou comprida!? Explico: terminada a faina, o Manoel me desatrela da carroça, amarra uma corda no meu pescoço e me leva para o quintal de sua casa, onde prende a corda num moirão liso. Se a corda for comprida, menos mal, pois poderei me deslocar até o mamoeiro e nele roçar as costas, quando ataca coceira. Se for a corda curta, é uma agonia só, pois o moirão liso não serve para roçar e a solução que encontro é espojar-me no chão poeirento, o que, quase sempre, me faz fungar o focinho, devido à rinite causada pela poeira, já que sou alérgico. Será rinite ou burrite!? Afora isso e desde que não chova, até que durmo bem, pois dos mosquitos cuida o rabo. Chovendo, não tem mosquito mas bate uma frieza que fico toda a noite a arrepiar-me e a fazer “brrruuuu”. Isso sai inconscientemente. Não consigo evitar.
            À noite, faço um lanche com capim seco e casca de mamão, isso quando o Manoel se lembra de servir-me antes de encher a cara. Vocês nem imaginam, mas um dia ele chegou a me oferecer um drinque: ”Toma, Uisque, vê como pinga é bom!” Recusei, pois sou abstêmio.
            Durante as horas de sono, a única aporrinhação fica por conta do compadre Bispo, que cisma de vir latir perto de mim. Por causa disso, já brigamos algumas vezes e lhe apliquei uns bons coices. O compadre ganhou o nome Bispo porque sempre late no mesmo tom.
            Posses eu não tenho, a não ser que considerem como meus os arreios que me são aplicados para atrelar-me à carroça e a corda que me prende ao moirão. Isso seria apropriação indébita, já que tais peças são de propriedade legal do Manoel e eu fui criado dentro do espírito da honestidade, o que me impede de apropriar-me do que não me pertence.
Lembranças, possuo muitas: lembro-me da queda que levei ao tentar andar - mal nascera - e só não me machuquei devido ao apoio que me deu minha mãezinha Safira. Lembro-me dos passeios que fazia com o Narciso, esse montado a pelo, pois eu ainda era franzino e não tinha sela que se ajustasse a mim. Ainda bem, pois sela é apetrecho fino que combina com cavalo besta e não com burro natural como eu. Além do mais, quando o montador usa sela também usa espora, para mostrar seu domínio sobre a montaria. Lembro-me do cajueiro que havia perto da casa-grande, sob cuja sombra eu gostava de dormitar, após fartar-me com os cajus caídos, já todos quase passados. Era uma farra aquilo. Lembro-me do susto que levei ao entrar na cidade, após ser comprado pelo Manoel. Vim de caminhão e quase caí da carroceria, embora estivesse amarrado pelas patas e pescoço. Lembro-me com muita saudade do capim verde que abundava na fazenda e que hoje somente vejo quando Manoel me leva até a BR. Melhor dito, quando eu o levo, pois ele é quem vai instalado no banco da carroça que eu puxo. Ele apenas indica o caminho com o chicote e aos brados de “anda, burro preguiçoso...”.
            Na minha vida atual, a única coisa que me chateia é quando os amigos do Manoel nos encontram na rua e dizem: “Mané, deixa de ser burro. Vende esse burro e compra uma égua. Elas são mais espertas e mais trabalhadoras”. Acho isso uma atitude racista e preconceituosa. Afinal, quem é o burro para eles? Eu ou o Manoel? E, porque não sugerem a compra de uma mula?
            Eu não tenho preocupações acerca da velhice e até a desejo, embora ainda esteja na meia idade. Sei que, quando envelhecer e não mais a carroça me quiser, vou ser solto por aí, a vagar pelos pastos – desculpem, pelas ruas. Ficarei livre da corda e poderei passear pelos terrenos baldios. Quem sabe, em um deles encontrarei a Cleópatra, minha amiga da adolescência, e então poderemos fazer travessuras!? Nos terrenos baldios sempre se acha capim verde, sabugo de milho, casca de mamão e sombra. Precisarei apenas tomar cuidado com o trânsito mas, em contrapartida, por ser idoso, terei preferência nas passagens de pedestres – ou será de patestres!?

            Fico a pensar no que será do Manoel, quando ele ficar velho...???

                                                                                              Juracy de Oliveira Paixão
                                                                                                          28.06.2006
Onde estou eu?

Eu estou aqui, neste sertão nordestino, sob bela mangueira envolta por frondosos cajueiros.
No centro e para o alto, majestoso coqueiro vigia o ambiente.
Nas cercanias, quatro pés  de carnaúba mostram limites.
À direita, ampla roça de mandioca e macaxeira.
À esquerda, enorme milharal.
Acima, jabuticabas.
Abaixo, abacaxis e ananás.
Oh Mãe  Natureza, farta e cuidadosa: Este Planeta Terra humildemente vos homenageia.
Louvemos a nós, seres terrestres - animais, humanos e flora - pelo privilégio que nos é  concedido...


Eu e meu compadre Zé Messias

Mudei-me para Valença (Bahia) em agosto de 1969, contratado por Dalmo da Silva Costa para desenvolver, implantar e administrar o Programa de Manutenção Preventiva da Companhia Valença Industrial, a primeira fábrica têxtil do Brasil. Lá chegando, fui muito bem recebido por José Augusto dos Santos (então gerente Industrial), fui odiado por José Andrade Soares (diretor administrativo) por ter me revelado um comunista de capa-e-espada, fui olhado com desdém por um ou outro técnico (já que eu não tinha formação em tecnologia têxtil), fui visto com certa interrogação por alguns outros (“o que será que este cara vai fazer?”) e fui amigavelmente acolhido por mais outros, como Luís Barbosa da Fonseca Lima e Cândido Giarolla.

Logo, as minhas aptidões de relacionamento e consumo de Brahma fizeram com que os da interrogação se aliassem aos da boa acolhida e eu fosse convidado para morar com eles, na República dos Técnicos. Logo, e por providências de Luís Barbosa, filiei-me à ABTT.

Conheci Zé Messias ao dar um giro de avaliação pela sala da expedição, onde ele trabalhava como auxiliar do Alípio, que era o chefe do setor. Messias me ajudou a entender a finalidade daquelas máquinas, a medir, dobrar, enrolar, esticar, cortar, embalar e prensar pano. Foi o primeiro e importante contato.

Sem muita demora, Alípio saiu e Zé Messias assumiu a chefia do Setor de Embalagem e Expedição. Casou-se com Maria Célia, a Celinha secretária de Zé Augusto, querida por todos por seu jeito meigo de lidar com os reclamantes e abusados. Eu, mais tarde, casei-me com Regina, filha de Nildo Costa.

Mostrando alto grau de capacidade administrativa e operacional, Messias foi enviado pela CVI para fazer o curso de técnico têxtil na CETIQT. Em seu lugar, como supervisor do Setor de Embalagem e Expedição, ficou Jailton Azevedo, que era seu auxiliar. Jailton, mais tarde, também foi enviado à CETIQT.

Messias retornou formado, com especialização em acabamento, e assumiu a rameuse, a flaneladeira, a mercerizadeira, os autoclaves e os giggers. Era o que a CVI tinha de acabamento. A tinturaria, contudo, tinha um novo chefe, em substituição ao meu amigo Cândido Giarolla, mineiro vei e bom de brahma.

Messias não possuía carro. Eu, a essa altura, tinha comprado do Alex um volks quatro portas branco, com 80.000 km rodados. Esse volks substituiu um chevette verde, comprado zero km lá em Cruz das Almas.

Lorena, minha filha com Regina, nascida em janeiro de 1975, fora dada como afilhada de Celinha e Zé Messias. A amizade, a essa altura, já se estendia ao compadrio. O dever, agora, era sair todo fim de semana, os quatro juntos, para bebericar pelas bodegas da periferia e no bar do Clube do Rodão, dançar forró nas festas de São João e bolar passeios rodoviários.

Nosso primeiro passeio foi uma viagem de feriado a Ilhéus e Itabuna (melhor dizendo, Itabuna e Ilhéus), eu dirigindo na ida e Zé dirigindo na volta. Depois, a amizade se aprofundou, graças ao elo de compadres quase irmãos, e fomos a Irará, para que Messias e Celinha conhecessem meus pais e a minha cidade natal. Na volta, à noite, os dois mais pra lá do que pra cá, quem dirigiu foi Regina, que abusava da velocidade, alegando que seu pai, Nildo Costa, “tinha lhe ensinado tudo direitinho”.

Fizemos uma viagem de férias a Aracajú, onde visitamos Lealdo e família, além de Wulpiam, que, a essa altura, já trabalhava por lá.

Nossa principal viagem, porém, foi a Recife, quando ficamos hospedados na casa de Gonçalo, um casarão lá pras bandas de Caxangá. Foi uma semana de farra: íamos passear na Boa Viagem e almoçávamos num restaurante que havia na Pracinha da Igrejinha. As esposas, Celinha e Regina, preferiam andar pela feirinha, vendo e comprando artesanatos, enquanto nós, de bom grado e cordialidade, optávamos por ficar na sacada do restaurante, tomando licor Stregga.

Messias foi trabalhar em Recife: primeiro na Torre, depois na Capibaribe e, finalmente, com o manda-chuva Luis Barbosa, na Camaragipe.

Em julho de 1979, fui convidado pelo Mauro Rios para trabalhar na José Rufino. Alex, na mesma época, foi convidado pela Paulista. Viajamos juntos, para os primeiros contatos. Ao chegar em Recife, telefonei para Messias e ele exigiu que eu ficasse hospedado no apartamento dele, lá prás bandas de Candeias. Acertei “as coisas” com a José Rufino e resolvi alugar um apartamento para cuidar, logo, da minha mudança. Foi Celinha quem me ajudou, andando de carro pelas ruas de Boa Viagem e Piedade. Afinal, de Recife eu nada conhecia. Terminei por alugar um apartamento na Rua Sebastião Leme, na Boa Viagem (atrás do Supermercado Compre-Bem e a um quarteirão da praia).

Quando chegamos de mudança, mais uma vez ficamos, eu, Regina e Lorena, uma semana no apartamento de Zé Messias, aguardando as “nossas coisas” para mobiliar o apartamento alugado.

A partir daí, era domingo sim com Zé Messias e Celinha e domingo sim com Alex Medina e Vera. Messias foi morar em uma casa próxima à Caxangá e Alex morava em um apartamento por trás da Rua Barão de Souza Leão. Uma vez ou outra, quando convidados, íamos todos para “Maria Farinha” onde o manda-chuva Luís Barbosa tinha uma bela casa de praia. Lá, a cortesia de Luís e Zelinha compensava com sobra. o trânsito que se enfrentava: era caranguejo, agulha-frita, e Brahma, muita Brahma.

Saí da Zé Rufino, fui para a Macaxeira e, depois, vim para Fortaleza. Messias, por seu turno, passou a trabalhar como representante comercial da indústria química e nossos contatos ficaram difíceis.

Voltamos a nos ver, já no ano de 1994, eu casado com Elizabethe e ele morando em uma casa de dois pavimentos em Aracaju. Após esse encontro, nunca mais nos vimos, a não ser pelos recursos da Internet.

Foi com enorme tristeza que fiquei sabendo, pelo e-mail do Luís, da sua partida definitiva. Perdi um grande amigo, irmão, compadre e companheiro, a Indústria Têxtil perdeu um grande profissional e Valença passou a ter menos importância.

A vida é assim: feita de bons e maus momentos, de boas e más ocorrências. Mas, o que se há de fazer?!


                                                                                  Juracy Paixão
Entardecer.

A lagoa estravasando.
Nas beiras, mistura de grama e lama.
 Lodo? Não há. 
Ventania...
A manta d'água ondula.
A pata, com seus patinhos, 
volta à terra firme.
Os grilos organizam o coro de chiados...
Borboletas balouçam as asas ao deus-dará.
As lanternas dos vaga-lumes
iniciam a onde de pisca-pisca...
Sombras trafegam entre as moitas das margens..
Uma melancolia de dia findo se manifesta...
Os sapos dialogam:
(Texto e seguir de autoria de Luiz Gonzaga)

"Fostes?
Fui.
Comprastes?
Comprei.
Pagastes?
Paguei.
Me diga quanto foi!?
Foi quinhentos reais".

Juracy Paixão
Desafio

“Se você me vê sorrindo,
Eu lhe explico porquê:”

É que você vem saindo.

Eu quero falar com você.