quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Comércio Iraraense e seu Status em Meados do Século XX


No primeiro terço do Século XX, a base do comércio nas pequenas comunidades interioranas tinha seu suporte no atendimento das necessidades fundamentais da população. O que se buscava era o que havia para vender: alimentos de subsistência, tecidos e sapatos rústicos, chapéus de baixa qualidade, ferramentas agrícolas, utensílios caseiros. Enquanto o suprimento de alimentos básicos tinha sua fonte na agricultura familiar e local, o abastecimento dos demais itens era feito, principalmente, por tropeiros a serviço dos atacadistas da Capital.

            Embora a moeda já circulasse, grande parte dos negócios com os tropeiros tinham como suporte a troca das mercadorias por produtos agrícolas locais ( em Irará, notadamente o fumo em manocas e em corda). Bens mais sofisticados – louças finas e jóias, por exemplo - somente podiam ser adquiridos quando algum familiar se deslocava à Capital ou quando presentes especiais eram dados por ocasião de casamentos na família. Móveis e utensílios eram frutos dos hábeis artífices da comunidade.

            Finda a Segunda Guerra Mundial, os países periféricos – ditos aliados dos aliados vitoriosos – foram agraciados com grande quantidade de veículos militares (jeeps e caminhões) usados durante o conflito, agora inúteis para as forças armadas vitoriosas. Esses veículos eram importados a custo baixo e vendidos a alto preço para os nativos interessados. O Brasil, assim, passou a ter uma considerável frota de caminhões (GMC e FORD), o que exigiu a abertura, às pressas, de uma ampla rede de estradas de rodagem, a maioria com cobertura de cascalho.

            Por volta dos Anos 50, Irará passou a ter uma frota de caminhões de carga considerável, levando-se em conta o tamanho da cidade. Caminhoneiros como Ospício (e filhos), Inácio, Zé Mendes e Zé Campos fizeram fama e estrada por anos a fio. Esses caminhoneiros passaram a ser o elo entre o comércio local e os armazéns da Capital, além de Feira de Santana, então forte centro de distribuição de mercadorias. Os comerciantes da cidade, ao menos uma vez por mês (alguns, mais afoitos, o faziam quinzenalmente), partiam para a Bahia (assim chamavam a velha capital) na boleia do caminhão de sua preferência e de lá retornavam com os estoques renovados para seus negócios: fardos de charque do Rio Grande; amarrados de bagre e surubim salgados; caixas de sardinha e azeite; latas de biscoitos; engradados de bebidas variadas; feixes de enxadas, foices e estrovengas; caixotes com tecidos e sapatos  da moda; embalagens com medicamentos e perfumarias.

            O comércio local compunha-se de seis segmentos: padaria, farmácia, bar, loja, armazém e venda.

Padaria, mesmo, eram duas: a de Zinho Paes Coelho ( na Rua de Baixo, Beco do Mercado) e a de Zé Carvalho (na Praça do Comércio, lado oeste).Mais tarde Zinho passou seu negócio para Pedro Vítor. As mercadorias principais era o pão italiano, o cacetinho e a famosa bolacha fofa. Ah, sim, havia, ainda, o macarrão nº zero, aquele furadinho.

            Farmácia havia a de Chaves, na esquina da Praça com a Rua Manoel Julião. Depois instalou-se a Farmácia Confiança , de Manoelzinho da Paixão (mais tarde vendida a Dr. Ramalho), na esquina da Praça com o Beco de Elízio. Além dos medicamentos de marca, as farmácias ainda aviavam as famosas receitas de manipulação, uma das principais formas de tratamento da época, eficiente e barata. Os remédios campeões de vendas eram, no entanto: Biotônico Fontoura, Tiro Seguro e Vinho Reconstituinte Silva Araújo.

O bar principal era o de Éverton, logo comprado por Manoelzinho e mais tarde vendido a Bráulio Miranda. O estabelecimento tinha dois grandes salões com mesas de bilhar e sinuca e situava-se no início da Rua Direita, vizinho à Farmácia Confiança. Logo Nelson Coronel abriu um bar concorrente na esquina oposta, vizinho à barbearia de Pedro Guarda. O bar de Nelson fez tanto sucesso que se instalou uma filial na Rua da Quixabeira, também com mesas de sinuca. Mais tarde Henrique abriu seu bar na Praça (ao lado da loja de Éverton) e seu irmão Zé Petu instalou seu negócio na Rua Manoel Julião (quase em frente à tenda de Zé Estrela). O forte do bar de Henrique era a reunião de bebedores de cerveja a conversar fiado (e a beber no fiado...). Já Zé Petu privilegiava o carteado, no salão do fundo. Os bares sofriam, ainda, a concorrência dos depósitos de bebidas: os mais conhecidos eram o de Tiano (depois passado para Pedro de Tiano) e o de Olavo, ambos na Rua de Baixo.

            Irará era farto de lojas: havia a de Pedro Martins, a de Éverton, a de Eduardo Portela, a de Fernando, a de Teófilo e a de Zeca Caribé. Todas na Praça. Nas lojas o sortimento ia de brim a gorgurão, de chita a tricoline, de seda a fustão. Vendiam-se, ainda, os tradicionais chapéus de baeta marca Prada e perfumarias diversas, além de sobrinhas e guarda-sóis.

            Os armazéns preferenciavam a comercialização de ferragens e artigos de couro, tintas, plásticos e similares. Destacavam-se o ponto comercial de Cesário Bacelar e o dos Barbosa, ambos no lado leste da Praça.

            A venda se constituía, ao lado da loja, na principal atividade comercial da cidade. O ponto forte das vendas era o costume de vender fiado com anotação em caderneta. Era o crédito direto, sem fiador nem nota promissória: coisa de quem confia no freguês. As vendas se subdividiam em três segmentos:
            No primeiro segmento estavam os atacadistas, que possuíam grandes estoques e abasteciam os pequenos comerciantes da cidade e redondezas. Seus proprietários eram Pedro Nolasco de Pinho (o Piroca Brejão) e Alfredo Pereira Franco (dono da primeira bomba de gasolina da cidade). Ambos operavam na Praça.
            Os Secos e Molhados constituíam o segundo segmento, pontos comerciais médios especializados em gêneros alimentícios e utensílios domésticos (além de miudezas e bebidas). Fizeram fama, nesse segmento, Lúcio de Jesus, Manoelzinho da Paixão e Naziazeno Barbosa (Nazi). Lúcio e Nazi tinham seus pontos comerciais na Praça e o de Manoelzinho ficava na Rua de Baixo, esquina com o Beco do Mercado.
            O terceiro segmento era formado pelas quitandas, basicamente comercializando gêneros alimentícios. A mais famosa era a de Dodó, na Rua de Baixo.

            É de se notar que o costume nomeava as casas comerciais pelos seus proprietários: o povo comprava na padaria de Zinho, na venda de Lúcio, na quitanda de Dodó, na loja de Teófilo, no bar de Nelson, na farmácia de Chaves. Títulos como “A Violeta”, “A Confiança”, “A Moderna”, “A Garota” não tinham personalidade e nada significavam para o público. A publicidade de então residia na credibilidade do dono do negócio e na fidelidade do seu freguês habitual.

            Além dos comércios tradicionais citados, merecem destaque especial as tendas, pontos de negócio dos diversos artífices: carpinteiros, ferreiros, sapateiros, tanoeiros, alfaiates, barbeiros, funileiros. Nomes como Zé Freitas, Mestre Cacimiro, Olavo, Valfredo, Zeca e Vavá sergipanos, Velho de Graziela, João Tanoeiro, Marcelino, Pedro Barbeiro, Zé Estrela e tantos outros que moldaram, calçaram, vestiram, mobiliaram, apararam e supriram os lares e gentes desta obra prima chamada Irará.

Juracy Paixão




O Cofre Iraraense e suas Moedas

                                               Juracy de Oliveira Paixão (junho 2009)

Os humanos começaram a interagir no momento em que as trocas se tornaram uma garantia de sobrevivência: O escambo funcionava como recurso de abastecimento. O surgimento da Moeda – que substituiu o escambo - foi conseqüência direta da exploração de um grupo por outro e da imposição do poderio econômico nascente. A partir de então, não se tem vislumbrado o termo moeda como algo positivo ou merecedor de aplausos.

Cofre é visto, sempre, como lugar de guardar riquezas, bens de valor. Bens materiais, ressaltem-se. Aluga-se um cofre em um banco para a guarda segura de jóias e títulos ou para esconder dinheiro que não pode ser contabilizado (o sujo ou de origem duvidosa). Cofre é sinônimo de algo forte, mas também se usa o termo para indicar uma pessoa plena de mistérios. Afinal, mistérios materiais são guardados em cofres.

O Cofre Iraraense refere-se às características de uma comunidade rica de apelos culturais populares; marcada por personagens que fizeram nome e tempo; com uma profícua história registrada nos seus casarões, cantos e folguedos; com personagens dotados de desprendimento em favor dos desvalidos; titulada pelo arroubo político-revolucionário.

São diversas, distintas e inegociáveis as moedas que enchem o Cofre Iraraense:

  • A Moeda do desprendimento intitula-se Alberto Nogueira, aquele que sacrificou sua vida e seu patrimônio em beneficio dos desprotegidos.
  • A Moeda da ética e da lisura em favor do social está registrada sob o nome de Deraldo Portela, o prefeito perfeito. As partículas (centavos) dessa moeda se configuram ao ouvir-se o som mavioso da “25 de Dezembro”.
  • A Moeda do saber ser “ARTE e POVO” brilha no trabalho de Zé Nogueira e se espraia pela obra de João Martins.
  • A Moeda da alegria boêmia, tão iraraense e tão anos cinqüenta, reluz na voz inigualável de Zé Vermelho.
  • A Moeda do afeto e do denodo popular espelha-se na tez altaneira de Alfredo da Luz.
  • A Moeda capaz de exportar-se e de irararizar-se pelo mundo afora apresenta-se na virtuose rebelde de Tom Zé.
  • A Moeda da luta em favor das causas sociais e de sua exposição no complexo mundo parlamentar apresenta-se em Fernando Santana.
  • A Moeda da fidelidade à causa, em que pesem as adversidades, registra-se em Pedro de Tiano e Raul Cruz.
  • A Moeda do revolucionário nato – fiel e leal - sem perder a característica irarense, tilinta em Aristeu Nogueira.

No Cofre Iraraense estava a faltar uma moeda. Uma que cuidasse do que restou do patrimônio cultural e histórico da nossa comunidade; uma que olhasse para todos sem arremedos e sem gestos de segregação ou desprezo. Essa moeda, faltante, foi criada com a entrada de Roberto Martins – o Ró de Zé do Rádio – para o Quadro de Elite da Administração Municipal. O Prefeito Municipal Derivaldo Pinto Cerqueira soube encontrar a voz certa para a ação desejada, num sinal claro de que pretende marcar época com sua administração.


O Cofre Iraraense ainda tem espaço para novas moedas. Certamente nossa comunidade as cunhará a tempo e hora.
Mais uma noite de boemia

Irará anos 50. Rua Manoel Julião. Bar de Zé Petu. Uma mesa com seis lugares: três copos de cerveja a meia espuma, uma garrafa de Laranja Turva e um par de cálices cheirando a “Dois Leões”. Numa cabeceira, Dante a dedilhar as cordas, afinando o violão. Em frente, Zé Vermelho a pigarrear, aprontando a voz. Ladeando, Agnaldo Maia esfrega as mãos, preparando-se para as palmas. Outros três – platéia – esperam o esperado: noite de boemia, com toque e voz de ouro.

A música – e letra - não se sabe quem compôs ou escreveu. Sabe-se, apenas, que representa o sentimento de cada ouvinte:

O Beijo

O beijo
Pode ser roubado,
Pode ser comprado,
Ou de coração.

Na vida,
Já provei três beijos,
Vou contar, cantando.
Prestem atenção.

Beijo roubado
É um beijo emocionante,
Porém dura um só instante.
Eu provei, quase apanhei.

Beijo comprado
Não é beijo verdadeiro,
Pois tem gosto de dinheiro.
Eu provei e não gostei.

O beijo dado,
Este sim é verdadeiro
Porém dura um ano inteiro,
Para assim poder beijar

E foi preciso
Que com ela me casasse
Pra que ela me beijasse,
Mas assim é bom beijar.

Juracy Paixão. Fortaleza – 12/12/07
Minha Participação nas Eleições para a Presidência da Pátria Amada


1989:
Candidatos: Collor, Lula, Brizzola, Mário Covas, Maluf.
Votei em Brizzola no 1º turno e em Lula no 2º turno

1994:
Candidatos: FHC, Lula, Brizzola
Votei em Brizzola

1998:
Candidatos: FHC, Lula, Ciro Gomes
Votei em Ciro Gomes

2002:
Candidatos: Lula, Serra, Ciro Gomes
Votei em Ciro Gomes no 1º turno e em Serra no 2º turno.

2006:
Candidatos:Lula, Alkmin, Cristovão Buarque
Votei em Cristovão Buarque no 1º turno e em Alkmin no 2º turno.

2010:
Candidatos: Dilma. Serra, Marina
Votei em Marina no 1º turno e em Dilma no 2º turno.
Achei que o Brasil merecia ter uma Mulher Presidente, fato já comum na Europa.

2014:
Candidatos: Dilma, Marina, Aécio
Votei em Marina no 1º turno e em Aécio no 2º turno


Deploro esta mania radical da Imprensa Brasileira em sinonimar Petismo com Comunismo.
Petismo é sinônimo de Fascismo (O Poder pelo Poder).
Facismo é antônimo de Comunismo.

Tornei-me COMUNISTA da Velha Guarda em 1960. Sou comunista e o serei até o final dos meus dias. Sou comunista pela Filosofia e não pela Política. Ateu declarado desde os 17 anos de idade, votaria no Papa Chico, caso ele fosse candidato à Presidência do Brasil. Tenho certeza de que ele seria eleito e faria um Governo Laico, inclusive tirando de nosso amado dinheiro a frase  "Deus seja Louvado".







O Bom Silêncio...

“Mas existe também o silêncio bom, que, em lugar de erguer muros, abre espaços. È a não-necessidade de falar, entre pessoas seguras do seu carinho mútuo. Elas ficam perfeitamente felizes sentadas juntas, cada uma lendo seu livro, seu jornal, fazendo seu trabalho. De vez em quando uma palavra, um gesto de afeto, e ao redor delas abre-se um círculo de harmonia. Quando a linguagem é simples, ou até supérflua, porque o sentimento é real e assim entendido, podemos escutar a alma do outro na sua respiração. Todo ruído, toda agitação, e até mesmo a fala, serão secundários. Os amantes não vão se calar por mágoa ou impotência, mas porque algo os expressa melhor do que as mais contundentes palavras.”
O comerciante da Praça do Mercado...

Lembro-me de Lúcio de Jesus, nos anos 50, indo vistar papai nas manhãs de domingo. Os comerciantes abriam meia-porta a fim de arrumarem a casa após a labuta do sábado. Lúcio chegava:"E aí, Pereira, como foi teu sábado?". Lúcio , ao que me recorde, era o único a nomear papai como Pereira, no lugar de Manoelzinho. Papai, tão matreiro quanto ele, respondia: "Não foi assim tão bom quanto o teu, pois meu estoque é pouco sortido". E se punham a conversar sobre fretes de caminhoneiros (que traziam suas mercadorias desde Salvador,onde se abasteciam a maioria dos comerciantes de Irará). Falavam de Piroca Brejão (de sua concorrência de atacadista e varejista)e de Alfredo Franco ( que não concorria, porque era somente atacadista).Falavam da politica local e estadual: Desde Juracy Magalhães até Elísio Santana;desde Antônio Balbino até Amaro Medeiros. Despediam-se e fechavam suas meias-portas.

Tenho saudades de Lúcio de Jesus, aquele da casa Maria Luiza.

Juracy Paixão

Irará, Moscou & Saudosismo



Situada na linha divisória entre o Recôncavo e a Caatinga, a cidade baiana de Irará é um primor de exclusividades.

Nos anos 50 e 60 foi considerada a Moscouzinha da Bahia, devido ao elevado número de comunistas iraraenses em relação à pequena população local. E eram comunistas famosos, como Aristeu Nogueira, Raul Cruz, Fernando Santana, Tertuliano Teixeira, dentre tantos outros que agitavam a cena revolucionária da Bahia de então, dispostos a darem suas vidas para mudar o mundo.
Berço de um considerável número de artistas dos mais variados matizes, tem, da nova geração, nomes como Zé Nogueira, João Cerqueira, as ceramistas Nem, Dôli, Dinha, Bel – apenas para citar algumas -, e dezenas de outros que pintam, compõem, cantam, gravam, imprimem, fazem... Até o Dida, goleiro da seleção, em Irará pôs os pés no mundo.
Da velha guarda, nomes como Tom Zé, Mestre Maçu, Almiro de Oliveira, Mestre Panta, Maestro Aniceto Cruz, Maestro Xaxá, Ovídio Santa Fé, Fred Dantas, apenas dão início a uma longa lista.
Terra de Nossa Senhora da Purificação, reza por todos os credos com devoção e fervor, festejando-os com a alegria própria do bom baiano.
Ser iraraense é uma benção dos céus. Naquele recanto, respira-se um ar especial, embora quente, à sombra das poucas árvores que a Prefeitura deixa de pé.
Como bem disse um patrício da nova guarda, Roberto Martins, todo iraraense é de um pai e de uma mãe: Fulano, filho de Beltrana e de Sicrano. Assim, não se tem dúvidas a respeito de quem se fala.
Ir a Irará, ao menos uma vez por ano, é dever de quem lá nasceu, dever cumprido à risca, seja para ouvir as bandas locais, seja para os festejos de São João ou para as festas da Padroeira, seja para rememorar o passado. Anda-se por aqueles caminhos, outrora poeirentos, como se fossem as alamedas do Bois de Bologne. Olha-se o velho sobrado do Cel. Elpídio Nogueira como a mirar o Coliseu Romano, sobe-se a ladeira da fonte como se fosse a colina do Parthenon.

Iraraense de quatro costados, encontrei, nos meus 20 anos de Fortaleza, a felicidade tão buscada. Como os demais, vou ao torrão natal todos os anos, no meu caso com o saudosismo dos que descem a ladeira da vida com os olhos mirando para o alto. Lá, na Moscouzinha da Bahia, relembro meu refúgio na verdadeira Moscou, para onde fui, meados dos anos 60, a fim de escapar das garras ferozes e assassinas dos anos de chumbo. Na minha cidade, sertão seco e pobre, relembro do aconchegante frio moscovita. Revejo, na praça da Matriz, o Teatro Bolchói. Pelos caminhos da Mangabeira, alcanço o Parque Górki. No Comércio, sinto-me na Praça Vermelha, a olhar os muros do Kremlin. Descendo a rua de Baixo, estou a caminhar pela Lênine Prospekt. No velho bar do Coronel, bebo vodka como o fazia no Beriozka do Hotel Aeroflot.  Se entro na Casa de Cultura, estou a visitar as galerias da Úlitsa Arbat. Apreciando a Filarmônica 25 de dezembro, pranteio, como se escutasse as melodias do Coral Púchkin. A velha casa da família é a datcha dos meus dias de férias, nos arredores da capital da URSS. Inconscientemente, murmuro: Za izdarovie, Spassibo, Karachô, Továrich.

Nesses tempos do ético, social e politicamente correto, em que a revolução ideológica deu lugar à das palavras, espero que o meu Irará faça jus ao seus guerreiros do passado, mereça os artistas de hoje e construa uma sociedade mais justa. Dô cvidânia.

Juracy de Oliveira Paixão