quarta-feira, 11 de maio de 2016

Paráfrases

                                                                                              Juracy Paixão (22/09/2007)

                                   “Eu sou eu mais as minhas circunstâncias” – Ortega y Gasset.

Nosso “modus-vivendi” é definido pela nossa forma de atuação na sociedade. Tal procedimento molda nossas vontades não só em função dos nossos desejos, mas e principalmente como decorrência dos que nos cercam e das variantes que os fatos vão nos abrindo a cada momento. Somos seres sociais e mutantes.

“Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros, talvez ele              esteja escutando um tambor diferente”.  Henry Thoreau.

Cada pessoa tem, na vida, seu período de seguir e de se fazer seguir. À medida que definimos nossa personalidade, vamos buscando nossos próprios caminhos, delineando nosso horizonte e objetivos. Pode-se viver em equilíbrio com o meio onde se está sem ser soldado de batalhão, que só marcha de acordo com o dobrado.


Viver é abrir caminhos...
Os Encourados de Pedrão e a Luta pela Independência da Bahia

                                                                                                               Juracy O. Paixão

Três de novembro de 1821. “Convocado o povo, militares e civis sobem a Ladeira da Praça e ocupam o prédio da Câmara”. Dali, parte o aglomerado para a Casa dos Governadores e exige a deposição da Junta. O comandante militar português, Francisco de Paula e Oliveira, comanda: “É guerra de Brasileiros com Portugueses”. Rapidamente, o brigadeiro Luís Madeira de Melo ocupa as praças e ruas com suas tropas, dando início à resistência portuguesa ao movimento geral, em todo o Reino do Brasil, pela Independência. Os portugueses reagem ao O FICO e o povo apóia o Regente.

A cidade de Salvador começa a esvaziar-se: famílias inteiras se deslocam para o Recôncavo, temendo a ação dos portugueses.

Junho de 1822. No Recôncavo concentram-se os líderes baianos que apóiam o Príncipe Regente. A guerra pela Independência do Brasil na Bahia inicia-se com a mobilização de tropas na Vila de Nossa Senhora do Rosário da Cachoeira, que assume o papel de Capital. A Independência, já motivo de confronto, somente seria decretada a Sete de Setembro, às margens do Ipiranga.

As tropas brasileiras começam a formar-se a partir dos batalhões patrióticos, oriundos das diversas comarcas da Província: Companhia dos Caçadores de Santo Amaro, Voluntários da Vila de São Francisco, Voluntários do Príncipe Dom Pedro (Periquitos - batalhão ao qual pertence Maria Quitéria), Libertos Imperiais (batalhão de escravos, cedidos por seus senhores) e os Encourados de Pedrão.

De Oito de Novembro de1822 a Dois de Julho de 1823, esses combatentes enfrentariam as tropas portuguesas, sitiariam Salvador e libertariam a Província do jugo lusitano.

A Independência, de fato, se deu na Bahia.


Os Encourados de Pedrão formavam um batalhão de vaqueiros recrutados nas fazendas de gado da região de Pedrão e circunvizinhanças, por iniciativa do padre Brayner. O jaleco e o gibão, até então usados como proteção contra os espinhos da caatinga brava, passa a ser a indumentária do herói sertanejo na defesa da Pátria e da Província.

Pedrão, então pequena vila da Comarca de Água Fria (mais tarde incorporada à Comarca da Purificação dos Campos – Irará), hoje se orgulha de seus rústicos heróis e os homenageia com escola e biblioteca que lhes leva o nome: “Encourados de Pedrão”.

Bibliografia

- Dias Tavares, L. H., História da Bahia, UNESP: Salvador, BA: EDUFBA, 2001.


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Por que o ser humano sente necessidade de organizar-se?

No princípio era o caos. O homem primitivo agia como indivíduo isolado, senhor de suas ações. A própria luta pela sobrevivência, contudo, impôs-lhe a necessidade da união, da organização em bandos, para a ação conjunta contra as feras e contra as hordas rivais. Dessa organização em bandos nasceram as famílias, as tribos, as nações.

A necessidade de organização na Sociedade Hodierna é uma imposição do próprio desenvolvimento social.

O ser humano se organiza não somente para viver melhor, mas também – e sobretudo – para que sobreviva. A organização social é a razão mesma da riqueza e do progresso.

No campo, a as cooperativas levam ao aumento da produtividade, a maior abundância e a menos fome; na cidade a organização social cria novas possibilidades de emprego, de educação, de desenvolvimento.

A organização, imperativo da vida moderna, deve ser posta a serviço do Ser Humano, jamais escravizá-lo. Uma organização social justa prevê  o bem-estar coletivo, o progresso e o crescimento uníssono da sociedade. A causa comum torna-se a razão lógica das ações individuais, em detrimento dos interesses particulares e de grupos.

Beneficia-se a coletividade com os avanços da técnica; estimula-se o progresso com as conquistas da ciência; justifica-se a sociedade com o trabalho comum  do ser humano.


Juracy de Oliveira Paixão 
O Templo e os Mercadores

O Templo era, em Jerusalém, o lugar mais concorrido. Para lá iam os vendedores ambulantes, os encantadores de serpentes, os contorcionistas e prestidigitadores, os pedintes, os abandonados pela sorte, os ditos crentes, os descrentes, os sacerdotes e seus asseclas. Nas escadarias laterais pululavam mulheres da vida. O sumo sacerdote tudo permitia, já que de todos recebia compensações.

Neófito em Jerusalém, o Filho de Deus resolveu visitar o Templo. Assediado pelas marias madalenas, subiu, célere, as escadarias e adentrou ao grande pátio. Assustou-se com a multidão ali presente, serpentes silvando, pedintes rogando pragas por suas misérias, ditos crentes fingindo orar, descrentes assíduos na jogatina, mercadores anunciando suas bugigangas. Ofegante e furibundo, o Filho de Deus arrancou o chicote das mãos de um ambulante que conduzia um jumento e, rodopiando o instrumento , esbravejou tonitruante: “Fora, todos vocês, da Casa do Meu Pai !!”. Os mercadores, e encantadores, e pedintes, e crentes, e descrentes, todos assustados, saíram aos gritos, em debandada. Encarando os sacerdotes que, togados, se deleitavam com vinho, uvas e encostos de cetim, o Filho de Deus os desafiou: “ Fariseus, como permitis tal orgia na Casa do Meu Pai!?”. O sumo sacerdote, sarcástico, inquiriu: “Quem sóis ? como ousas expulsar nossos amigos ??”

O Anfiteatro do Parque do Cocó, durante uma semana do mês de julho de todos os anos, em tudo se assemelha ao Templo de Jerusalém, quando ali se realiza o Halleluya. Os mercadores de hoje vendem indulgências, os encantadores de serpentes travestem-se de purificadores de almas, os ditos crentes bradam frases sem nexo, os descrentes lavam a güela com cerveja e a cuca com maconha, os pedintes de araque rogam as pragas de sempre e as marias madalenas, na flor dos seus 12 anos, desfilam entre os transeuntes, debochadas e disponíveis. O sumo sacerdote de plantão promete mundos e fundos para os que renunciarem aos prazeres terrestres e indica os pontos para coleta das contribuições, fundamentais à obtenção dos tais mundos e fundos. O aluguel de vagas no céu tem tabela e exige fiador.

Os archotes modernos, potentes luzes coloridas, aliados seguros do som estridente e dos gritos histéricos, tiram o sossego da vizinhança que, desprovida de chicotes, nada pode fazer.

A titulo de garantir a livre circulação dos moradores, em boa hora o Fortal foi retirado da Avenida Beira Mar. Falta retirá-lo, agora, das proximidades do Centro Dragão do Mar, patrimônio do povo. Quando os moradores do entorno do Parque do Cocó terão sossego, no mês de julho??

Já é mais que tempo desse Brasil que se diz laico fazer como fez a França e restringir aos ambientes fechados manifestações e atos religiosos que, a título de agirem em nome da Fé, nada mais fazem do que agredir os direitos do cidadão. A fé é ato e decisão particular e, como tal, deve ser manifestada em ambientes próprios, sem ferir os que dela discordam. Agir de forma diferente nada mais será do que ampliar os limites da hipocrisia, da imposição, do desrespeito ao livre pensamento.

O Anfiteatro do Parque do Cocó, anualmente invadido pelos mercadores da fé, pertence ao povo e não pode ser transformado em pátio de falsos milagres, em palco de crenças hipócritas, em poço de mistificação. Área pública não é passarela, não é mercado, não é templo. Deve ser, pura e simplesmente, cenário de cidadania.

Algo há que ser feito, antes que algum filho de um deus qualquer, sentindo-se agredido e privado de seus direitos, encontre um chicote e resolva, por conta própria, expulsar os invasores.

Juracy de Oliveira Paixão
O Salário

                                                                                                                     Juracy Paixão


O Salário é uma das instituições básicas da Economia, através da qual a riqueza circula. O conceito de salário varia em função da estrutura econômica e das fases de desenvolvimento econômico. Na Sociedade Primitiva, o próprio processo de troca de produtos anulava a necessidade de salário, vez que ainda não havia surgido a Mão-de-Obra como mercadoria. Com a introdução do Regime Escravagista e com os primeiros prelúdios da Estrutura Capitalista, o salário surge sob uma forma encoberta: ao escravo paga-se com alimentação (apenas o suficiente para mantê-lo em condições de trabalhar), ao servo-da-gleba cabe uma ínfima parcela da colheita. É com o surgimento do Capitalismo Industrial que o salário assume seu caráter de Instituição. A proletarização crescente das massas trabalhadoras e a concentração dos meios de produção nas mãos de um grupo reduzido de Capitalistas fazem com que aqueles, para sobreviverem, vendam a estes a sua Força-de-Trabalho. Para que tal mercadoria pudesse ser comprada, era necessário fixar-lhe um preço. Neste caso, como em todos, a Lei da Oferta e da Procura foi a determinante desse preço: quanto mais proletários houvessem necessitando trabalhar e quanto menos trabalhadores necessitassem os capitalistas, tanto mais barata seria a mercadoria Força-de-Trabalho. Por outro lado, quanto mais aperfeiçoado fosse o trabalho a ser vendido e quanto mais delicada fosse a tarefa a ser realizada, tanto mais caro seria o preço a ser pago pelo Capitalista ao Proletário.

Com o aperfeiçoamento e desenvolvimento do Capitalismo, a Política Salarial passou a ser norteada no sentido de aumentar para o Capitalista a Mais Valia, ou seja, aquela parte do Valor do Trabalho que fica com o capitalista na forma de Mercadoria Produzida.

Um dos aspectos nefastos da Política Salarial em voga é a alienação do Ser Humano em relação ao trabalho como objetivo - o trabalhador não trabalha para aumentar a riqueza social, mas para obter o ganho necessário, e mínimo, para sua sobrevivência. Não são poucos os estudiosos sociais a condenarem este aspecto alienador do trabalho. No século passado, o grande filósofo alemão Karl Marx dizia, no seu tratado “Das Kappital”: “ A alienação do Homem em relação ao Trabalho leva a que este seja visto como criação do diabo, escondendo, assim, da multidão o caráter cínico da exploração capitalista através do trabalho assalariado”.

Assim é o Salário, este nosso grande inimigo.


                                                                       Publicado em “O Manacá”

                                                                       Valença/Bahia (Mai/71)
O parque do gado

Não, caros leitores, não vou escrever sobre rodeios, vaquejadas ou leilão de bois. Meu tema é o Parque do Cocó, em seu trecho que fica na lateral da Avenida Eng. Santana Júnior.
Lá, diariamente e desde julho do ano passado, pasta um rebanho de bovinos  (cerca de 25 cabeças), das 10 às 12:30 h. Não se trata de um rebanho qualquer. Este é organizado, com aboiador e vaqueiro, ambos a cavalo de bom porte. Afinal, para se ter um parque como pasto é preciso estrutura e organização. O caminho da marcha é tranqüilo: cruza-se a  Avenida Sebastião de Abreu por baixo da ponte, contorna-se a clareira central, corta-se o matagal da esquerda e lá está o bom pasto, às margens do riacho e do campo de futebol. Quando as vacas se encontram em dia de fofoca, dirigem-se até as margens do cruzamento da Avenida Santana Júnior com a Avenida Antônio Sales e lá podem saber das notícias do dia, num bom papo com os dois policiais fardados que ali permanecem a ler jornal. O vaqueiro e o aboiador, esses repousam nas sombras frondosas ao lado do campo de futebol, enquanto seus garbosos cavalos cochilam, tendo os cabrestos amarrados a um toco de pau, também em boa sombra.

Quando, nos idos de julho de 2003, avistei o rebanho pela primeira vez a partir da janela do meu apartamento, ousei, por dias seguidos, telefonar para os órgãos que julgava serem responsáveis pela guarda e preservação do Parque, como a Cia. de Polícia Ambiental e o IBAMA, mas perdi meu tempo. Na primeira, nunca havia viatura disponível no momento dos telefonemas (mas preencheram uma ficha da ocorrência). No segundo, o funcionário que atendia sempre dizia que estava fora da hora do expediente. Um dia, conversando com um motorista de taxi, esse me sugeriu entrar em contato com o programa ”Barra Pesada”. Não cheguei a tanto. Arrependo-me.

Utilizando-se um binóculo, pode-se constatar que o rebanho está sadio e gordo, o que nos leva a concluir que mato de parque é excelente ração.

Em um certo sábado, por volta das dez horas da manhã, o rebanho foi tocado para a área do Parque onde existe o palco e o calçadão da Avenida Pe. Antônio Tomás. Algumas vacas se desgarraram e invadiram a pista da avenida. Por pouco não houve um acidente. Será que teria sido melhor se houvesse?! Talvez assim alguém além de mim se interessasse pelo caso.

Certo dia, ousei perguntar a um dos guardas que “vigiam” a área do palco por quê nada se fazia para evitar o uso do Parque como pasto. Ouvi como resposta: ”fazer o quê, senhor?! Deixa as vacas aí, que elas não estão incomodando a ninguém”. Eu acho que o guarda estava certo. Afinal, para que serve um parque na cidade!? Se é permitido construir-se edifícios em seu entorno, por quê não pode o gado comer seu mato!?

O dono do rebanho? .Não sei quem é, mas, com absoluta certeza é alguém com costas muito largas e nível zero de cidadania.

      Juracy de Oliveira Paixão 

O DesVerso do Paladar


O gosto não é sentido
Se não for utilizado
No seu tom conotativo:
“Gosto do que me agrada,
Mesmo que não me alimente”.

O toque gustativo
É tão perfeito,
Que o vinho é classificado
Ao primeiro gole –
O mais é mero beber...

“O sal que te sai do corpo
É mel que me alimenta
E mitiga
Minha sede de ti,
Sabor que tens...”

Não fosse eu mero mortal,
Provaria teu néctar divino
E faria dos teus lábios
Palato gustativo
Do prazer e do amor.

És paladar,
Vinho do Porto
Framboesa perfumada
Embriaguez e apetite
Da minha fome de prazer


És sabor.