terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pessoal,
Fui submetido a uma cirurgia, mas não deixei de besteirar.

Plágio, pero no mucho

Juracy de Oliveira Paixão
29 de setembro de 2008

Se coco não fosse duro, Não havia gente banguela.

A segurança da noite, Reside no sentinela.

Comesse sopa esfriada, Para que serviria tigela?

Gorducho seria feio, Se não houvesse magrela?

Como há muito ladrão, Toda porta tem tramela.

Nada melhor num cortiço, Do que uma boa lambidela.

Uma boa noite de sono, É marcada por remela.

Festa de aniversário só presta, Com briga de parentela.

Quero ver porco baé, Comer fora de gamela?

Eu bebo cachaça com cravo, Mas prefiro com canela.

O gado só fica no pasto, Por causa de uma cancela.

Quem não prefere cajá, No lugar de siriguela?

Toda cidade antiga, Tem ruela e viela.

Pra namorar não tem ponto, Melhor que fundo de capela.

Se comida fosse só crua, Fogo não via panela.

Prámontador de cangalha, Tudo lembra uma boa sela.

Para furar couro curtido, Só mesmo forte sovela.

Ah, como é difícil nas ruas, Se livrar de cuspidela!

Não conheço família grande, Onde não haja querela;

Fazer negócio mal feito, É cair em esparrela.

Nada melhor prá limpeza, Do que uma boa flanela.

Todo cavalo de raça, Gosta de uma escovadela.

Como tirar água de poço, Se o dito não tiver biela?

Por que casarão antigo Sempre tem parede amarela?

Namorar na porta de casa, Só serve prá apalpadela;

Na boca da noite, vizinha Só fofoca na janela.

Toda venda de interior, Só anda com clientela;

Já pensou em andar na roça, Por caminho que não tem portela?

Quem disse que só tem bandido, Onde existe favela?

Carne de carneiro é macia, Mas prefiro de vitela.

Dizem que roupa pra ser boa, Tem que ter larga ourela.

O que é que é mais franzino? Um veado ou uma gazela?

Conversa de marido e mulher, Ou se cala ou se revela.

Não tem incômodo pior, Do que pimenta na goela.

Toda rua de cidadezinha, Merecia uma aquarela.

Dizem que cão que ladra não morde. E se for uma cadela?

Pobre quando vende seus bens, Sempre é por bagatela;

É melhor a vila de hoje, Ou a outrora cidadela?

Ah, se as plantas pudessem, Se livrar da pisadela!

Prá acordar bêbado dormindo, Só vai de sacudidela.

De que adianta um belo cinto, Se não tiver boa fivela?

Tudo indica que a morte é feia, Mas a vida é sempre bela?

Quando se ama de verdade, Toda moça é Cinderela.

Viu piscar mulher dos outros? É seguro não dar trela.

Quem bem tem um grande amor, Por se só segura e zela.

Meu domingo só é alegre, Quando passeio eu e ela.

Papai, mamãe, Que moça bonita é aquela!?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

des)Artes & Textos

"Pedras no meio do caminho"

Nascemos. Logo partimos em caminhada. A trilha está marcada em solo arenoso, cercado pelo desconhecido. O horizonte, destino pretendido, vamos definindo à medida que o caminho avança e em função dos obstáculos a superar. Esses - pedras no meio do caminho – tanto podem sugerir uma grande e intransponível barreira a exigir penoso atalho, como indicar o sacrifício da meta pretendida em favor de opções duvidosas. Tudo dependerá da audácia e da perseverança do andarilho.

Alcançar a vitória não significa, necessariamente, chegar ao destino antes traçado. Reside, também, em não se deixar abater pelas pedras no meio do caminho, mas em moldar o alcance do objetivo em função das dificuldades. Afinal, as pedras estão ali justamente para testar a persistência e a perspicácia de quem avança.

Certamente, ao longo da rota surgirão desvios que impressionam e empolgam, a sugerir deleite e aventura. É preciso ser decidido, forte e coerente para resistir à atração desses tentadores desvios e conduzir-se pelo duro atalho pleno de dúvidas, incertezas e sacrifícios.

O desvio que encanta e dissimula é o divisor de águas. Cabe ao andarilho optar pelo difícil que o conduzirá ao horizonte pretendido, ou deixar-se impressionar pelo fácil e agradável e alcançar o nada.

Forjar a vida consiste em saber recompor-se a cada revês, reestruturar as ações em função das agruras sofridas e, como barro novo após cada enxurrada, encontrar a razão de ser dentro de inesperado amálgama.

Dizem os teóricos de superfície que queimar etapas buscando desvios é a forma mais eficiente de se obter resultados. Mas, como fica o aperfeiçoamento que decorre, justamente, do erro e do acerto!?

Juracy de Oliveira Paixão (Setembro de 2004).

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

(des)Artes & Textos

Frágil, porém Forte

Habituamo-nos a considerar que "a resistência está para o aço, assim como a fragilidade está para o vidro". À luz do interior próprio dos materiais, não há dúvidas quanto ao suporte científico da comparação. O que nos cabe analizar, porém, são aspectos laterais, que envolvem o raciocínio.

Como reaje o ser humano ao sofrimento? Nem sempre os mais fortes fisicamente são os mais aptos a suportar a dor, ainda mais quando esta vem da tortura, que agride conceitos éticos e morais. É comum simples e sofridos presos políticos resistirem a meses de maus tratos sem trair seus contatos e objetivos, enquanto eventuais prisioneirostão somente suspeitosnutridos e bem situados, ao menor sopapo escancararem confissões impostas, “confirmando” fatos que lhes são inteiramente estranhos e desconhecidos apenas para se verem livres do suplício que lhes é aplicado.

É notório que as mulheres melhor resistem às crises depressivas e às dificuldades do que os homens, em que pese a aparência mais avantajada desses. Físico forte não é garantia de boa disposição e de capacidade de resistência.

O ser humano instala-se sobre alicerces que julga poderosos, até que os acontecimentos os abalem. Então, é preciso abrir janelas para consolidar uma nova estrutura. Abrir janelas implica em reconhecer fraquezas e admitir apoio.

Um simples pedregulho atirado pela funda do pequeno David atingiu o olho do gigante Golias e foi o bastante para lançá-lo ao chão.


Diante do temporal, há mais fortaleza nas frágeis asas da andorinha do que nos reforçados cascos dos barcos a navegar.

Juracy de Oliveira Paixão ( Fevereiro de 2003).







domingo, 3 de agosto de 2008

Caros amigos,

Nesses tempos de pré-eleição, nada melhor do que falar da falta de raciocínio.

Sigo, com meu (des)Artes & Textos:


Desraciocínio

O tão falado desenvolvimento tecnológico é resultado direto da evolução humana e da busca incessante pelo aperfeiçoar as cousas e as ações. A questão reside na aplicação equivocada desses esforços e seu mais nefasto exemplo está na acomodação da capacidade para raciocinar. Há quem chegue a dizer: ”Pensar para quê, se o computador faz tudo?” Outros, já desprovidos de qualquer dose de iniciativa, se limitam a afirmar: “Isso não pode ser feito, pois o sistema não aceita.”

O pensar como capacidade criativa foi substituído pela automação absoluta dos gestos, atos e fatos. Executa-se mecanicamente até as atitudes pessoais e os sentimentos mais íntimos como ternura, compreensão, dor, amor. Nada mais é feito por cada um e sim pelo sistema, através de códigos e exigências posturais preestabelecidas e por ações mecânicas e impessoais.

Combater o poderio dessa espécie de ditadura da tecnologia e do tal pensamento moderno constitui-se em ato subversivo, a merecer o castigo de diminutivos como: refratário a mudanças, retrógrado, conservador, ultrapassado.

As aplicações tecnológicas ignoram cultura, história, costumes, nacionalidade, patriotismo, até , esta combalida pela negação do velho bordão de que “somente Deus tudo pode”. Chegou, para Deus, a concorrência do computador.

Aqui, nesse brasil mal amado e de letras miúdas, a norma é avacalhar o idioma pátrio aportuguesando, para uso das massas ignorantes, os termos ditos superiores do inglês, na origem impronunciáveis pelos lábios, gargantas e línguas tupiniquins.

Nada mais certo do que se afirmar, inversa e categoricamente, que o hábito faz o monge.

Juracy de Oliveira Paixão (Dezembro de 2004).

domingo, 6 de julho de 2008

Caros amigos,
Voltando ao (des)Artes & Textos, aí vai mais uma.

da Vida... A Roda e o Cercado

Podemos comparar a nossa marcha, enquanto vivos, às quatro estações que delimitam as condições climáticas do ano.

Nosso nascer se assemelha à primavera, quando as plantas brotam e as flores se abrem, para alegria dos olhos. Na infância, ainda incrédulos diante das novidades e surpresas do mundo ao nosso redor, sorrimos transbordando alegria e mesmo o nosso eventual pranto cheira a satisfação.

Adolescentes, aprendemos a amar e a odiar, não admitimos sofrimento ou derrota, apostamos no futuro, por mais incerto que este nos pareça. Adultos, assumimos riscos e responsabilidades, dividimos nossas alegrias e realizações com parceiros e parceiras que julgamos perfeitos, em que pesem as decepções eventuais. Quando acertamos, vivemos a satisfação plena que somente o calor do afeto e da lealdade permite. Estamos em pleno verão.

Logo, como um soprar de ventania, descobrimos que existe a frustração, o sofrimento, a derrota. A necessidade de apoio torna-se uma constante, ainda que seja para seguirmos na trilha. As perdas ao nosso redor diminuem nossa aposta no futuro, antes tão promissor. Sofremos quedas inesperadas, desiludimo-nos com alguns dos que julgávamos parte de nós e nos agasalhamos. É o outono que nos bafeja.

O frio que nos invade a alma aponta a chegada do inverno, marcando, com seu cajado, o término da jornada. O que, um dia, nos parecia remoto, bate à nossa porta e nos transporta para o desconhecido.

A vida é uma roda que gira incessantemente, mas o fim certo indica que esse giro, tão ansiosamente praticado, se dá, sempre, dentro de um cercado sem saídas.

Juracy de Oliveira Paixão (Fevereiro de 2004).


quarta-feira, 30 de abril de 2008

Caros amigos,
Hoje quero dedicar meu espaço a um dos maiores compositores do Brasil: o paraibano Jessier Quirino. Este cara é capaz de transformar as coisas mais simples em clássicos. Dele, o que mais admiro é a composição "Vou-me embora pro passado", cuja letra encontrei em forma de texto na Internet. Remeto-a para vocês, abaixo. Comprem o CD (nada de pirataria, viu gente...)dele e vão adorar.

Vou-me embora pro passado

Jessier Quirino

Vou-me embora pro passado. Lá sou amigo do rei. Lá tem coisas "daqui, ó!":Roy Rogers, Buc Jones, Rock Lane, Dóris Day. Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado porque lá é outro astral. Lá tem carros Vemaguet, Jeep Willys, Maverick. Tem Gordine, tem Buick, tem Candango e tem Rural. Lá dançarei Twist, Hully-Gully, Iê-iê-iê. Lá é uma brasa mora! Só você vendo pra crer. Assistirei Rim Tim Tim, ou mesmo Jinnie é um Gênio. Vestirei calças de Nycron, Faroeste ou Durabem, tecidos sanforizados, Tergal, Percal e Banlon. Verei lances de anágua, combinação, califon. Escutarei Al Di Lá, Dominiqui Niqui Niqui. Me fartarei de Grapette na farra dos piqueniques. Vou-me embora pro passado.

No passado tem Jerônimo, aquele Herói do Sertão. Tem Coronel Ludugero, com Otrope em discussão. Tem passeio de Lambreta, de Vespa, de Berlineta, Marinete e Lotação. Quando toca Pata Pata, cantam a versão musical "Tá Com a Pulga na Cueca" e dançam a música sapeca “Ô Papa Hum Mau Mau”. Tem a turma prafrentex cantando “Banho de Lua”. Tem bundeira e piniqueira dando sopa pela rua. Vou-me embora pro passado.

Vou-me embora pro passado que o passado é bom demais! Lá tem meninas "quebrando" ao cruzar com um rapaz. Elas cheiram a Pó de Arroz da Cachemere Bouquet, Coty ou Royal Briar. Colocam Rouge e Laquê, English Lavanda Atkinsons ou Helena Rubinstein. Saem de saia plissada ou de vestido tubinho com jeitinho encabulado, flertando bem de fininho. E lá no cinema Rex, se vê broto a namorar de mão dada com o guri, com vestido de organdi, com gola de tafetá.

Os homens lá do passado só andam tudo tinindo: de linho Diagonal, camisas Lunfor, a tal; sapato Clark de cromo ou Passo-Doble esportivo, ou Fox do bico fino; de camisas Volta ao Mundo, caneta Shafers no bolso, ou Parker 51; só cheirando a Áqua Velva, a sabonete Gessy, ou Lifebouy, Eucalol. E junto com o espelhinho, pente Pantera ou Flamengo e uma trunfinha no quengo, cintilante como o sol.

Vou-me embora pro passado. Lá tem tudo que há de bom! Os mais velhos inda usam sapatos branco e marrom E chapéu de aba larga Ramenzone ou Cury Luxo. ouvindo “Besame Mucho”, solfejando a meio tom.

No passado é outra história! Outra civilização... Tem Alvarenga e Ranchinho, tem Jararaca e Ratinho aprontando a gozação. Tem assustado à Vermuth, ao som de Valdir Calmon. Tem Long-Play da Mocambo, mas Rosenblit é o bom. Tem Albertinho Limonta, tem também Mamãe Dolores. Marcelino Pão e Vinho. Tem Bat Masterson, tem Lessie, Túnel do Tempo, tem Zorro. Não se vê tantos horrores.

Lá no passado tem corso, Lança perfume Rodouro, Geladeira Kelvinator. Tem rádio com olho mágico, ABC a voz de ouro. Se ouve Carlos Galhardo em audições musicais. Piano ao cair da tarde. Cancioneiro de Sucesso. Tem também Repórter Esso com notícias atuais.Tem petisqueiro e bufê junto à mesa de jantar. Tem bisqüit e bibelô, tem louça de toda cor, bule de ágata, alguidar. Se brinca de cabra cega, de drama, de garrafão, Camoniboi, balinheira, de rolimã na ladeira, de rasteira e de pinhão. Lá, também tem radiola de madeira e baquelita. Lá se faz caligrafia pra modelar a escrita. Se estuda a tabuada de Teobaldo Miranda ou na Cartilha do Povo, lendo “Vovô Viu o Ovo” e a palmatória é quem manda.

Tem na revista "O Cruzeiro" a beleza feminina. Tem misse botando banca com seu maiô de elanca, o famoso Catalina. Tem cigarros Yolanda, Continental e Astória. Tem o Conga Sete Vidas, Tem brilhantina Glostora, Escovas Tek, Frisante, Relógio Eterna Matic com 24 rubis, pontual a toda hora. Se ouve página sonora na voz de Ângela Maria: "— Será que sou feia? — Não é não senhor! — Então eu sou linda? — Você é um amor!..."

Quando não querem a paquera, mulheres falam: "Passando, que é pra não enganchar!" "Achou ruim dê um jeitim!" "Pise na flor e amasse!" E AI e POFE! e quizila. Mas o homem não cochila, passa o pano com o olhar, Se ela toma Postafen, que é pra bunda aumentar, ele empina o polegar, faz sinal de "tudo X" e sai dizendo "Ô Maré!”, todo boy, mancando o pé, Insistindo em conquistar.
No passado tem remédio pra quando se precisar. Lá tem doutor de família que tem prazer de curar. Lá tem Água Rubinat, Mel Poejo e Asmapan, Bromil e Capivarol. Arnica, Phimatosan, Regulador Xavier. Tem Saúde da Mulher, tem Aguardente Alemã, tem também Capiloton, Pentid e Terebentina. Xarope de Limão Brabo, Pílulas de Vida do Dr. Ross. Tem também, aqui pra nós, uma tal Robusterina, a saúde feminina.

Vou-me embora pro passado, pra não viver sufocado, pra não morrer poluído, pra não morar enjaulado. Lá não se vê violência, nem droga nem tanto mal. Não se vê tanto barulho, nem asfalto, nem entulho. No passado é outro astral. Se eu tiver qualquer saudade, escreverei pro presente, e quando eu estiver cansado da jornada, do batente, terei uma cama Patente, daquelas do selo azul, num quarto calmo e seguro, onde ali descansarei. Lá sou amigo do rei. Lá, tem muito mais futuro. Vou-me embora pro passado

domingo, 20 de abril de 2008

Caroa amigos,





Incluo mais um artigo de (des)Artes & Textos





Tortura


Farpas e pontas sempre lembram dor. Dor lembrada é dor sentida.

Para quem escapa da morte como conseqüência da tortura, o sofrimento vitalício fica por conta da memória. Todas as agressões sofridas, todos os momentos de tensão – e de espera – tornam-se na lembrança a repetição psíquica do sofrimento físico passado.

A tortura tem a capacidade de perpetuar no torturado a pena que lhe foi imposta. Ao torturador basta o esquecimento dos atos praticados para que a ocorrência deixe de existir.

Mais hediondo do que furar, cortar, bater, pisar, é registrar na memória do ofendido cada agressão, de tal modo que ele se torna vítima e algoz de si mesmo.

O torturado que cala – não denuncia - sofre por si e pelo outro, já que o torturador, incapacitado de identificar pela denúncia forçada, nova vítima, põe na disponível a carga de sofrimento que reservou para a desconhecida, não denunciada.

Por que cala o torturado!!?? Porque há uma dor maior do que a física: a dor do desprezo, da fraqueza reconhecida.

Pode o torturado perdoar o torturador? Haverá de ser, se tal é possível, um perdão sempre repetido, a cada lembrança do sofrimento passado.

Pelo ato de torturar, o torturador – pretenso ser humano - mostra que está longe de alcançar o reino animal.

Juracy de Oliveira Paixão (Maio de 2003).