sábado, 28 de maio de 2016

O Futurismo Italiano (carta a Trotski)

António Gramsci

Fonte: The Marxists Internet Archive

Eis aqui as respostas às perguntas que você me fez sobre o futurismo italiano: O movimento futurista, na Itália, perdeu, completamente, seus traços característicos, depois da guerra. Marinetti dedica-se muito pouco com o movimento. Casou-se e prefere consagrar sua energia à esposa. Monarquistas, comunistas, republicanos e fascistas participam, atualmente, do movimento futurista. Em Milão, onde, recentemente, se fundou um semanário político, Il Principe, que formula, ou procura formular, as teorias desenvolvidas por Maquiavel para a Itália do século XV, a saber: Só um monarca absoluto, um novo César Bórgia, colocando-se à frente dos grupos rivais, pode encerrar a luta, que divide os partidos locais e leva a nação ao caos. Dois futuristas, Bruno Corra e Enrico Settimelli, dirigem o órgão. Marinetti colabora hoje nesse periódico, embora tivesse sido preso por causa de violento discurso contra o rei, que pronunciou em 1920, durante manifestação patriótica, em Roma. Os principais porta-vozes do futurismo de antes da guerra tornaram-se fascistas, à exceção de Giovanni Papini, que se converteu ao catolicismo e escreveu uma história do Cristo. Os futuristas, durante a guerra, foram os mais tenazes partidários da "luta até a vitória final" e do imperialismo. Só um fascista, Aldo Palazzeschi, declarou-se contra a guerra. Rompeu com o movimento e terminou emudecendo como escritor, embora fosse dos mais inteligentes. Marinetti publicou um manifesto para demonstrar que a guerra - sempre, aliás, exaltada por ele - constituía o único remédio higiênico para o universo. Tomou parte no conflito como capitão de um batalhão de carros blindados, aos quais teceu um hino entusiasta no seu último livro, A Alcova de Aço. Escreveu também uma brochura intitulada Fora do Comunismo, na qual desenvolve suas doutrinas políticas - se se pode qualificar de doutrina as fantasias desse homem - que são por vezes espirituosas e sempre estranhas. A seção de Turim do Proletkult, antes da minha partida da Itália, pediu a Marinetti que explicasse, na abertura de uma exposição de quadros futuristas, o sentido do movimento aos operários. Ele aceitou, voluntariamente, o convite. Visitou a exposição com os operários e declarou-se satisfeito com o fato de demonstrarem mais sensibilidade que os burgueses no que concerne à arte futurista. O futurismo, antes da guerra, era muito popular entre os operários. A revista L'Acerbo tinha uma tiragem que atingia a 20.000 exemplares, dos quais quatro quintos circulavam entre operários. Quando de numerosas manifestações de arte futurista, nos teatros das maiores cidades italianas, os operários defendiam os futuristas contra os jovens - semiaristocratas e burgueses - que os atacavam. O grupo futurista de Marinetti não existe mais. Um certo Mario Dessi, um homem sem o menor valor, tanto como intelectual quanto como organizador, agora dirige o seu antigo órgão, Poesia. No Sul, notadamente na Sicília, apareceram muitas folhas futuristas nas quais Marinetti escreve artigos; publicam-nas estudantes que encobrem com o futurismo a sua ignorância da gramática italiana. Os pintores compõem o grupo mais importante entre os futuristas. Há, em Roma, uma exposição permanente de pintura futurista, organizada por um certo Antonio Giulio Bragaglia, fotógrafo falido, produtor de cinema e empresário. O mais conhecido dos pintores futuristas é Giorgio Balla. D'Annunzio, publicamente, nunca tomou posição em relação ao futurismo. Deve-se dizer que o futurismo, na sua origem, manifestava-se, expressamente, contra d'Annunzio. Um dos primeiros livros de Marinetti intitulava-se Les Dieux s'en vont, d'Annunzio reste(1). Ainda que durante a guerra os programas políticos de Marinetti e de d'Annunzio coincidissem em todos os pontos, os futuristas permaneceram anti-d'Annunzio. Eles, praticamente, não mostraram nenhum interesse pelo movimento de Fiúme, embora mais tarde participassem das manifestações. Pode-se dizer que, depois da conclusão da paz, o movimento futurista perdeu completamente o seu caráter e dissolveu-se em diversas correntes, formadas no transcurso da guerra e em conseqüência dela. Os jovens intelectuais são quase todos reacionários. Os operários, que viram no futurismo elementos de luta contra a velha cultura acadêmica italiana, ossificada e estranha ao povo, hoje devem combater de armas na mão por sua liberdade e demonstram pouco interesse pelas velhas querelas. Nas grandes cidades industriais, o programa do Proletkult, que visa a despertar o espírito criador do operário para a literatura e a arte, absorve a energia daqueles que ainda têm tempo e desejo de ocupar-se com tais questões.
Poesia Matemática

Millor Fernandes

 Às folhas tantas
Do livro matemático,
 Um Quociente apaixonou-se,
Um dia, doidamente,
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E a viu do ápice à base: uma figura impar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo retangular, seios esferóides.

Fez da sua uma vida paralela à dela,
 Até que se encontraram no infinito.
 “Quem és tu?”- indagou ele, em ânsia radical.
 “Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa”.

E, de falarem, descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde a almas irmãs)
 Primos entre si.
E se amaram ao quadrado da velocidade da luz,
Numa sexta potenciação...
Traçando, ao sabor do momento, e da paixão,
Retas, curvas, círculos e linhas senoides
Nos jardins da quarta dimensão.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do universo finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar,
Constituir um lar,
Mais que um lar, uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos o Polígono e a Bissetriz.
E fizeram planos, e equações, e diagramas para o futuro.
Sonhando com uma felicidade integral e diferencial.

E se casaram,
E tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos.
E foram felizes até aquele dia em que tudo vira, afinal, Monotonia.

Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum,
Frequentador de círculos concêntricos viciosos.
Oferecendo a ela, uma grandeza absoluta...
E reduziu-a a um denominador comum.

E Quociente percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade.
Era um triângulo, tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a relatividade,
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade, como, aliás, em qualquer Sociedade.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Somos todos brasileiros?


Baiano residente  em  Fortaleza desde 1983, e casado com cearense do  alto sertão, sinto-me como se fosse, eu também, cearense de raiz. Orgulho-me em morar nessa bela urbis, tão decantada em prosa e verso. Contudo, não perdi meus amores pela Bahia, terra natal. Ofendo-me, bairrista que sou, sempre que vejo comentários desairosos sobre a Bahia, tal como me sinto quando esses comentários são sobre o Ceará.

No dia 22 de julho do corrente ano, “O Povo” publicou artigo da jornalista Patrícia Karam, intitulado “Ladeira abaixo”, no qual a articulista faz menção à Bahia e aos baianos de forma bastante depreciativa. Em certo trecho de seu artigo ela escreve: “...- e olha que o nível... ainda é mais baixo que o da baianada.”.  Segundo o “Aurélio”, baianada  vai de fanfarrice, passa por impostura e chega a patifaria.

O artigo comenta  o novo Fortal,  evento que eu também abomino, e destaca a agressão sofrida pelos moradores da Beira Mar durante tal evento ( com o que também concordo). Apenas, poderia a articulista fazer todas as críticas possíveis sem se dar ao papel quase xenófobo de criticar a Boa Terra, até porque agir assim é o mesmo que culpar, por exemplo, a nós baianos, pela existência de ACM,    como se em cada rincão desse país não existissem outros acms.

 Em outro trecho de seu artigo, menciona a jornalista que os grupos baianos copiam , “sem escrúpulos”, a coreografia dos “bailes funks cariocas”. Imaginemos os paulistas começando a espalhar que o cancioneiro do sertão cearense copia as modinhas rurais do interior paulista !!!!

Sou leitor assíduo dos dois grandes jornais fortalezenses. Deixei de ler a coluna da Regina Marshall porque, com freqüência, e por causa de qualquer me dá aquela palha, ela atacava de máfia do dendê e outras xenofobiazinhas, referindo-se à Bahia e aos artistas baianos.

Também não gosto de axé-music, como não gosto de falso forró. Aprecio o abará e o acarajé  tanto quanto adoro a rapadura e o baião-de-dois.  O que amo, mesmo, é  a escrita independente, quando  ética e sem ranços.

A dar-se espaço e vazão a manifestações de timbre xenófobo, com o passar dos anos fatalmente proliferará em nosso país movimento separatista, com as  regiões ricas de um lado e as pobres de outro - nesse último, baianos e cearenses igualados pela discriminação.



Juracy de Oliveira Paixão 
Demissão nas Portas do Céu...

São Pedro está tentando acessar o cadastro digital dos candidatos a entrar no céu, mas, para variar, o sistema está fora do ar.

A fila é grande, e tem gente de todo tipo:
-10 frades, sendo dois pedófilos;
-5 freiras, estando duas grávidas;
-6 políticos, dois deles do PT;
-7 jornalistas, sendo 3 da Globo e 2 da Revista Veja;
-6 artistas (2 cantores, 3 atores e 1 grafiteiro), dos quais 4 se cadastraram como bissexuais.

Para completar a lista complicada, apareceu, de última hora, um ateu sem nenhum registro no currículo.

São Pedro pediu ajuda ao Arcanjo Gabriel, mas ele respondeu que seu local de trabalho é no portão do purgatório. Sugeriu que São Pedro falasse com Satanás.

São Pedro telefonou para a portaria do inferno e pediu para falar com o "coisa ruim", mas a atendente de voz meiga informou que Satanás estava de porre.

São Pedro, desesperado, apelou para o Papa Chico.
O Papa, mostrando sua enorme empatia hermana , sugeriu que somente o ateu merecia entrar para o céu.

São Pedro, por via das dúvidas, resolveu consultar o Pai Eterno.
Feita a consulta, São Pedro ouviu a seguinte resposta:

"Deixe entrar todos da fila, exceto o ateu".


São Pedro, então, perguntou:
"E o que faço com o ateu?"

O Pai Eterno respondeu: 

" Ele vai ficar aí, na sua vaga, pois vou te demitir"
Nós, Os Bichos...

Que triste sina esta de ser galinha


Nasci em uma Sexta-feira da Paixão. Já vim ao mundo piando. Comigo vieram três irmãs e dois irmãos. Após um có-có-có de controle, minha mãe abandonou as cascas rachadas dos nossos casulos e nos instou a ciscar. Assim teve início nossa amamentação.
            
Minha mãe chamava-se Messalina e ela bem que merecia o seu imponente nome: dava-se – literalmente – para todos os galos do nosso terreiro, vendia-se aos galos dos terreiros vizinhos por tão somente uma ou duas minhocas e pouco se lixava para o ato e o fato de se encher de filhotes sem pai conhecido. Costumava dizer que, como galinha, somente lhe restavam duas atitudes: “ser boa de choca e cria ou marchar para a panela de água quente”. Além do mais, afirmava: ”se não me dou, os galos me tomam, mais fortes como são”.
            
Segundo informação duvidosa da minha mãe Messalina, meu pai fora o galo Maroto, um macho de pescoço pelado, crista grande avermelhada e esporões de arrepiar qualquer vivente. Contava ela que todas as galinhas do terreiro eram apaixonadas pelo Maroto, mas ele tinha lá suas preferências: gostava das polacas, de pouca pena e rabo curto.
           
 Meu pai, caso tenha sido o Maroto, morreu de gogo antes da minha vinda à luz e minha mãe foi atropelada por uma carroça, mal eu entrava na adolescência. Não pude, tampouco, conviver com minhas irmãs e irmãos. As manas foram levadas para a feira da rua e, lá, vendidas. Os manos foram assados na brasa, durante uma festa de aniversário. Sobrevivi à venda porque, no dia da caçada das minhas irmãs, sumi de circulação, subindo num telheiro que havia ao lado do poleiro – sem que nem pra quê. Mera coincidência: cansados de me procurar, os nossos donos contentaram-se somente em colocar as manas no caçuá de viagem.
            
Nosso terreiro é bem provido: tem pé de araçá, pé de aroeira, pé de sapoti; tem um chiqueiro com um casal de leitões e quatro filhotes; tem o nosso poleiro de quatro degraus, além do cercado onde ficam os ninhos de chocar. Sim, porque chocar é a maldição e a salvação de toda galinha. Eu, na minha parca existência, já estou na quinta choca e já perdi a contas dos pintos que produzi. Se eu ganhasse uma bolsa maternidade, estaria milionária. Chocar é uma aporrinhação: fica-se acocorada uma eternidade sobre uma ruma de ovos que nem são nossos, a esperar que os danados se rompam e dêem crias à luz. Mal se bebe e quase não se come. Nascidos os diabinhos, lá vamos nós a ciscar com eles – quanto mais cedo aprendem o ofício da sobrevivência, mais cedo a gente se liberta da tarefa de mãe. Mal passado o resguardo do choco findo, há que se livrar dos galos , a fim de que tudo não recomece. Vida de galinha se resume nisso: ciscar, cocoricar, ser tomada pelos galos ou a eles se dar como fazia minha mãe Messalina, e recomeçar tudo – a fim de não cair no espeto sobre brasas, quando se escapa de uma panela fervente.
            
De tanto dar – querendo ou não – os humanos, nossos donos, apelidaram suas aventureiras de galinhas, o que não passa de uma grande injustiça com a nossa raça. Explico: nosso dono tem uma empregada (ela se diz secretária...) chamada Gioconda, que é casada com o lenhador Cornélio. Todo santo dia, mal o pobre do marido ombreia o machado e vai pro mato, a adúltera se aperta com a primeira calça que aparece: do vaqueiro ao patrão, do leiteiro ao sacristão. E faz essa leviandade com um ar de deboche e um sorriso mais pra cínico do que pra enigmático. Nesse contexto, as humanas aventureiras deveriam ser apelidadas de giocondas e não de galinhas – pobres de nós.
            
Aqui no sítio, do que não podemos nos queixar é de falta de comida: sai milho duas vezes por semana, pirão de farinha todo dia, casca de fruta vez sim e vez não, e ainda há o resultado de nosso ciscado: formigas, baratas, minhocas, lagartas, cocô dos bichos e dos meninos, semente disso e daquilo. É uma dieta bem equilibrada.
            
Para nós, o melhor dia é após a feira na rua: sempre volta uma ou outra que não foi vendida e conta as novidades. Minha prima Maricota, mesmo, voltou esta semana com uma estória pra lá de fantasiosa. Como ela é muito fofoqueira, é preciso dar um bom desconto. Espalhou aqui no terreiro que, num intervalo da feira, conseguiu manter conversação com duas galinhas brancas que lá estavam á venda. As tais brancas contaram serem oriundas de um negócio chamado granja. Disseram que nessa tal granja tudo é na base de grupos, formados por algumas poedeiras e uns poucos galos por grupo. Cada poedeira, depois de ser arrochada por um galo, é transferida para um novo local, com água pingando e ração bem à boca. Assim que se livram do ovo, esse é levado para uma galinha mecânica chamada chocadeira e lá nascem os pintinhos. Mal os filhotes alcançam a puberdade, os machos são separados em lotes e uma parte vai para um matadouro onde se transformam em “frangos congelados”.Os restantes que escapam da chacina vão abastecer os grupos das poedeiras, em substituição dos velhos, seus prováveis pais, que são condenados à brasa. As fêmeas seguem o destino habitual das galinhas: dar-se ou serem tomadas, pôr ovos e chocar. A estória carece de confirmação, até porque acho difícil galinha branca ter essa intimidade toda com uma mestiça igual à Maricota.
            
Por falar em frango, aqui temos outra injustiça dos humanos: apelidam gol fácil de frango e o goleiro que o sofre de frangueiro. Sabendo como é trabalhoso pegar esses nossos parentes/irmãos quando soltos no terreiro – os danados são rápidos e velozes na carreira – frango era para ser apelido de gol difícil.
            
Nosso expediente no terreiro é monótono e repetitivo: acordar com o ucuruncucum dos galos; bater asas para descer do poleiro; ciscar, logo, os molhados da madrugada para papar as minhocas em mudança; comer o pirão de farinha matutino; dar-se a , pelo menos, dois ou três galos por dia; comer, ciscar; comer,ciscar; subir num galho do pé de araçá para espiar a safada da Gioconda se atracando com a calça do momento. Se há choco, é chocar e chocar. Se há pinto, é andar ao som monocórdio do nosso próprio co-có-có, a ver se os pestinhas aprendem a arte da cisca e nos dão uma folga. Ao fim do dia, baixado o sol, voltar para o poleiro e dormir com os olhos meio fechados e meio abertos. Importante é torcer – e até rezar pro santo protetor das galinhas - para que não falte carne de vaca na cozinha do sítio. Se faltar, aí somente a sorte salva.
           
  Ia-me esquecendo: vez por outra ouve-se um co-có-CÓ-có-có-CÓ de dois tons, anunciando mais um ovo no mundo.
           
  Susto por aqui afora nos casos de falta de carne de vaca, somente nas noites de lua cheia: a raposa Sinistra resolve vir nos aperrear. A felicidade é que, mal ela chega, a cadela Brucutu dispara a latir e a correr e a assassina foge. Outra preocupação é quando tem festa na casa do sítio: ao vermos a arrumação da sacaria de carvão e o fumacê das panelas, temos que nos preparar para fugir da pega. Logo entra no terreiro alguém com mãos vazias, a fim de enchê-las com nossos pés. Para escapar da pega, há que correr e aí leva vantagem quem mais abusa da cisca e se enche de proteínas. Melhor é pra quem está de choco, pois gente não come galinha choca. Nesse caso,é de se dizer que o azar dá sorte.
            
A novidade por aqui, é um movimento que está se formando pela criação de uma Delegacia de Defesa da Galinha, contra o abuso dos galos. O nome da instituição é pomposo, mas a pompa se justifica pela magnitude do objetivo. O movimento começou no terreiro vizinho, sob o comando da galinha Gargantilha, a única donzela em toda a redondeza. Dizem que ela consegue assim permanecer (donzela, é claro) porque bota tanto boneco que os galos se cansam e partem para outra. Esse seu nome se deve ao simulacro de jóia que ela parece carregar atrelado ao pescoço e que a faz sempre igual, embora diferente das demais. O projeto-de-lei está para ser votado há meses, mas sempre falta quorum na Assembléia. Eu acho que, das duas uma: ou é sabotagem dos membros galos, que não têm interesse em ver o projeto aprovado, ou é um recurso obstrutivo dos governistas, com medo de que a diminuição dos chocos venha a comprometer a meta do PIB. De qualquer forma, um passo importante já foi dado para a nossa libertação: aprovaram o Estatuto da Franga e da Galinha, estando este apenas dependendo da sanção presidencial para entrar em vigor. O Estatuto, em seu texto muito bem redigido por juristas especializados em Direito dos Galináceos, prevê que as frangas e galinhas fazem jus a dois dias por quinzena de abstinência sexual. Apesar de bem redigido, o texto apresenta um vício: não prevê a proibição de horas extras e é bem capaz de os galos exigirem expediente adicional para compensar a perda dos dois dias quinzenais. Já há uma medida provisória para incluir a proibição das horas extras no Estatuto, mas os galos não têm permitido quorum para a sua aprovação em plenário. Talvez o governo tenha que soltar alguns benefícios a fim de obter o tal quorum. Quem sabe, uma importação de frangas...
           
  É preciso que, na próxima renovação da Assembléia, sejam eleitas mais galinhas do que galos, a fim de termos os nossos direitos garantidos. O problema é achar galinhas descompromissadas com as elites e que estejam dispostas a se candidatar. A própria Gargantilha, atualmente a única representante fêmea na Assembléia dos Terreiros e que pertencia ao PG (Partido dos Galináceos), não tem chance de se reeleger. Ela foi expulsa do PG assim que este assumiu o poder, por discordar das vagas públicas que lhe foram reservadas. Gargantilha fundou um novo partido, o PLUA (Partido pela Libertação Universal das Aves), muito radical e sem foco na realidade. A não reeleição de Gargantilha vai nos deixar sem representação na próxima legislatura, se novas candidatas não se elegerem.

           
 Como é difícil ser cidadã nesse mundo de terreiros. Que triste sina essa de ser galinha eleitora sem opção de voto. É melhor morrer de gogo.


Juracy de Oliveira Paixão.

08/07/2006
Plágio, pero no mucho

                                                                                                                      Juracy de Oliveira Paixão
                                                                                                                       29 de setembro de 2008

Se coco não fosse duro,                                                        A segurança da noite
Não havia gente banguela;                                                    Reside no sentinela:

Comesse sopa esfriada,                                                         Gorducho seria feio
Para que serviria tigela?                                                        Se não houvesse magrela?

Como há muito ladrão,                                                         Nada melhor num cortiço
Toda porta tem tramela;                                                        Do que uma boa lambidela:

Uma boa noite de sono,                                                        Festa de aniversário só presta
É marcada por remela;                                                          Com a presença da parentela;

Quero ver porco baé                                                              Eu bebo cachaça com cravo,
Comer fora de gamela?                                                         Mas prefiro com canela;

O gado só fica no pasto,                                                       Quem não prefere cajá
Por causa de uma cancela;                                                    No lugar de siriguela?

Toda cidade antiga                                                               Pra namorar não tem ponto
Tem ruela e viela;                                                                  Melhor que fundo de capela;

Se comida fosse só crua,                                                       Montar em jumento de cangalha
Fogo não via panela;                                                             Faz lembrar um boa sela;

Para furar couro curtido,                                                       Ah, como é difícil nas ruas
Só mesmo uma boa sovela;                                                   Se livrar de cuspidela!

Não conheço família grande,                                                Fazer negócio mal feito
Onde não haja querela;                                                         É cair em esparrela

Nada melhor prá limpeza                                                      Todo cavalo de raça
Do que uma boa flanela;                                                       Gosta de uma escovadela;

Como tirar água de poço                                                       Por que casarão antigo
Se o dito não tiver biela?                                                      Tem parede amarela?

Namorar na porta de casa,                                                    Na boca da noite, vizinha
Só serve prá apalpadela;                                                        Só fofoca na janela;

Toda venda de interior,                                                         Já pensou em andar na roça
Só anda com clientela;                                                          Por caminho que não tem portela

Quem disse que só tem bandido,                                          Carne de carneiro é macia,
Onde existe favela?                                                              Mas prefiro de vitela;

Dizem que roupa pra ser boa                                                 O que é que é mais franzino?
Tem que ter larga ourela                                                        Um veado ou uma gazela?

Conversa de marido e mulher                                               Não tem incômodo pior
Ou se cala ou se revela;                                                         Do que pimenta na goela;

Toda rua de cidadezinha                                                       Dizem que cão que ladra não morde;
Merecia uma aquarela;                                                          E se for uma cadela?

Pobre quando vende seus bens                                             É melhor a vila de hoje
Sempre é por bagatela;                                                          Ou a outrora cidadela?

Ah, se as plantas pudessem                                                   Prá acordar bêbado dormindo
Se livrar da pisadela!                                                             Só vai de sacudidela;

De que adianta um belo cinto                                                           Tudo indica que a morte é feia
Se não tiver boa fivela?                                                         E que a vida é sempre bela;

Quando se ama de verdade                                                  Viu piscar mulher dos outros?
Toda moça é Cinderela;                                                        É seguro não dar trela:

Quem bem tem um grande amor,                                          Meu domingo só é alegre
Por se só segura e zela;                                                          Quando passeio eu e ela.

Papai, mamãe,

Que moça bonita é aquela!?
Pedro de Tiano, Comunista da Velha Guarda

Juracy de Oliveira Paixão




Idos dos Anos 60. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), na semi-legalidade, possuía ativo diretório no Município de Irará, no qual se destacavam Raul Cruz – o Intelectual e Pedro de Tianoo Homem das Massas. Enquanto Raul sobressaia-se por sua capacidade de interpretar Lênin, Marx e Engels, transmitindo aos seus camaradas os ensinamentos dos Clássicos do Marxismo, Pedro dava lições de como “falar ao povo usando a linguagem do povo”.

            Pedro Ferreira da Silva entrou para o Partido pelas mãos de Tertuliano Teixeira (o Tiano do Depósito) com quem trabalhava. Um dia, a Direção Estadual do PCB resolveu encarregar Tertuliano da tarefa de organizar o Partido nas regiões de influência da Petrobrás no Recôncavo e ele se foi, deixando duas vagas para Pedro assumir: a do apelido e a do Diretório.

            Naqueles anos, ser comunista conhecido e oficial era um ato de heroísmo, não somente pelas perseguições promovidas pelas forças da repressão estatal mas, também, pelos estigmas que entidades como a Igreja Católica impunha aos ditos vermelhos. Muitas vezes, até os familiares do comunista o combatiam, dificultando-lhe a vida. Ao menos, Pedro teve sorte com seus familiares: desde o sogro João Pechincha até os irmãos mais velhos e mais moços, todos eram membros ativos do Partido e deles o camarada Pedro recebia todo o apoio e cobertura.

            Pedro de Tiano revelou sua suprema audácia e coragem quando, em plena ditadura militar, deu guarida e refúgio nas Terras do Manã a Percílio dos Santros, líder das Ligas Camponesas na Bahia, então caçado por carrascos de farda e por jagunços de latifundiários. Percílio sobreviveu aos anos de chumbo graças ao apoio de Pedro de Tiano e de outros que, como ele, souberam honrar os ensinamentos de Lênin.

Irará tem filhos ilustres dos quais pode se orgulhar. Pedro merece destaque nessa constelação.

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